Reflexões de um ciclista que já passou pelo drama de ser atropelado

Por André Pontes

Já estava tudo pronto para falarmos de outro assunto essa semana, mas quando recebi a notícia mais desagradável dos últimos tempos, achei que era hora de comentar mais o assunto. Tenho uma firme convicção de que se cada um fizesse a sua parte não seríamos obrigados a conviver com tantas fatalidades como a que ocorreu na tarde do último sábado, quando um jovem ativista, ciclista, filho e irmão foi atropelado aqui em Brasília e faleceu no dia seguinte. Neste momento tenho os olhos mareados, em parte revivendo o que aconteceu comigo em abril deste ano, quando também fui atropelado no bairro Noroeste, junto com um amigo que hoje apresenta sequelas muito mais graves que as minhas. E, em parte também, por saber a amplitude da dor pela qual essa família passa nesse momento.

Quem me conhece sabe que sou ciclista há muitos anos e defensor da bicicleta como o mais eficiente transporte urbano existente, e da boa convivência no trânsito, que é composto por carros, ônibus, caminhões, motociclistas, ciclistas e pedestres. Também tenho profunda convicção de que, se cada uma dessas partes fizer simplesmente o correto, podemos diminuir drasticamente esses acontecimentos, que não são somente acidentes ou meras estatísticas, são vidas impactadas de forma definitiva e irreparável.

A solução para isso tudo não é tão complicada assim, mas depende de cada um de nós enquanto componentes do trânsito. O que é realmente complicado é a mentalidade individualista do ser humano. É necessário entender o outro lado, e nós, enquanto sociedade, mostramos ignorar deliberadamente essa necessidade. As influências ruins estão muito mais destacadas do que as boas no que tange ao respeito ao próximo, ao direito de ir e vir e ao individual se sobrepor enormemente ao coletivo.

Pensem comigo: por quê, no código de trânsito, o maior deve cuidar do menor? A resposta é porque se pressupõe, por exemplo, que um motorista de ônibus ou caminhão também é capaz de dirigir um automóvel pequeno e, portanto, de entender a experiência vivida por um motorista comum e antecipar alguns movimentos. Totalmente diferente de um motorista que acabou de receber sua licença provisória e não tem experiência suficiente para reagir com habilidade e rapidez no trânsito. Assim sendo, motoristas de veículos maiores devem respeitar os menores porque sabem o que pode vir do outro lado. Caso semelhante ao de um motorista que deve respeitar um pedestre, porque todo motorista é, também, um pedestre. Nem todos os pedestres são capazes de entender as situações de trânsito com veículos, e por isso devem ser respeitados como a parte mais frágil do trânsito. Nada mais que uma questão de bom senso. Nesse ponto, nem vou comentar a atitude dos motociclistas ou “motoqueiros” que usam o corredor entre os veículos, usam calçadas como vias e executam manobras em contramão, ou motoristas que dirigem teclando ao celular ou em excesso de velocidade. Esses certamente são acéfalos, não têm respeito por nada, nem sequer por eles mesmos, e são incapazes de entender os riscos a que expõem outras vidas.

Excluídas essas aberrações, o que os motoristas de veículos – de qualquer tamanho – precisam entender é que o LADO DIREITO do seu veículo é o mais importante! Motoristas geralmente não têm noção de distância lateral do ponto mais afastado do volante e muitas vezes efetuam manobras perigosas, mesmo sem perceber. Dica para os motoristas (lembrando que sou motorista, pedestre e ciclista): respeite o limite de velocidade de via (pensamento coletivo, não individual) e não confie no seu instinto – diminua a velocidade e faça a mudança para outra faixa ao passar por obstáculos à sua direita em velocidade. Em caso de curvas, invista 4 ou 5 segundos a mais da sua vida na segurança da outra vida que vai à sua frente, e aguarde o momento mais seguro para efetuar a ultrapassagem.

Os pedestres também devem entender o lado dos motoristas e ciclistas, e em condições de trânsito, devem sinalizar e procurar usar os locais adequados para travessia. Veículos precisam de tempo e uma certa distância para pararem com segurança. Os locais de travessia não são colocados em determinados locais por acaso. Por isso, pedestres precisam entender que se deslocar alguns metros a mais para atravessar uma via é prudente para o trânsito como um todo, não só para sua própria segurança (importante pensar no coletivo e não no individual). As velocidades das vias em Brasília são geralmente altas, e uma travessia em local não apropriado pode causar acidentes graves. É óbvio que existe uma infinidade de lugares onde sequer existe estrutura de sinalização e há que se conviver com isso por mais algum tempo, mas usar uma sinalização individual ampla (sinalizar com os braços) ajuda o motorista a ver o pedestre com antecedência, possibilitando maior segurança a ambos.

Ciclistas também devem respeitar motoristas e pedestres. Em Brasília, a exemplo de diversas outras cidades, temos basicamente três tipos de ciclistas: os competitivos (treino), os recreativos (atividades lúdicas) e os de deslocamento (afazeres), cada um com suas peculiaridades e objetivos exponencialmente diferentes, bem como suas atitudes no trânsito. Também é necessário ciclistas entenderem que desenvolvem uma velocidade considerável, e precisam se antecipar aos acontecimentos de trânsito; entenderem que motoristas têm pontos cegos em seus veículos e, quando o trânsito está mais intenso, têm menos tempo de reagir adequadamente e com segurança ao enxergar o ciclista, mesmo estando dentro dos limites de velocidade. Faço aqui um pequeno parêntese sobre trânsito: segundo pesquisas, a maioria dos acidentes entre veículos e ciclistas acontece em situações de trânsito tranquilo e quando o ciclista encontra-se isolado. Ao avaliar esse fato, podemos afirmar que a desatenção e o excesso de velocidade decorrentes dessas situações aparentemente tranquilas são os maiores causadores de acidentes entre motoristas e ciclistas.

Esse tipo de informação é crucial e nos permite oferecer algumas dicas para que todos tenhamos uma convivência mais harmoniosa…

Primeira e mais importante: pense no coletivo e não no individual. Se faltar prudência e bom senso ao outro, você precisará tê-los em dobro! Proteja a si mesmo e ao próximo!

Segunda: atividades em grupo são mais seguras que as individuais. Esteja em grupos de quatro, cinco ou mais pessoas para aumentar sua segurança.

Terceira (especialmente para os ciclistas): equipamentos de segurança são absolutamente necessários quando em deslocamento no trânsito! Isso inclui os equipamentos de corpo: o capacete bem ajustado, óculos (proteção contra detritos e insetos) e luvas (firmeza nos controles e proteção contra eventuais quedas). Luzes sinalizadoras são os equipamentos da sua bicicleta, sendo a dianteira BRANCA e a traseira VERMELHA, necessariamente, e é recomendado inclusive seu uso diurno. Luzes de outras cores (azuis ou amarelas por exemplo) não devem ser usadas por sinalizarem situações distintas no trânsito.

Quarta: NUNCA use fones de ouvido no trânsito (serve para todos). Geralmente o som está alto nessas situações, e a sua percepção do que acontece ao redor fica bastante prejudicada quando a audição está bloqueada.

Quinta e última: sinalize! Pense no coletivo e não no individual. Sua falha em sinalizar pode colocar em risco muito mais do que a sua vida, mas as vidas ao seu redor. Lembre-se que, ao seu redor, existe um fluxo formado por outras pessoas, outras vidas, outros pais, filhos e irmãos que também levam sustento às suas famílias. Falhas individuais podem impactar outras vidas de forma irreparável e definitiva.

Entenda o outro lado e dissemine essa forma de pensar. Não importa se o outro fez errado – sua consciência é o mais importante para que você mostre educação e cidadania. Se faltar prudência e bom senso ao outro, você precisará tê-los em dobro!

Mens sana in corpore sano et mutare ad melius! (E mude para melhor!)

Até a próxima!

24 de outubro de 2017


1 Comentário

  1. Eventualmente me desloco de bicicleta para os mais variados lugares e penso que, para além de um código de trânsito e da expectativa de bom senso dos outros, se faz necessário desenvolver o senso de autopreservação.

    Mesmo em uma utopia na qual a lei fosse cumprida à risca por todos, na qual o bom senso imperasse e onde a capacidade de compreender a necessidade coletiva fosse ordinária, ainda existiria a possibilidade, embora menor, de ocorrerem acidentes.

    Como o material que compõe um automóvel certamente irá sobrepujar o material compõe o meu corpo quando em uma colisão eu simplesmente prefiro, por exemplo, abdicar do meu direito de transitar por algumas vias, em alguns horários e até mesmo em algumas regiões, visto que um tiro também pode me levar a óbito.

    Obviamente é importante instigar o cumprimento da lei, o respeito ao próximo e o bom senso, mas por mais absurdo que pareça, se faz necessário alertar que aquele de deve empregar maior zelo na proteção da própria vida é o próprio indivíduo e nunca me faltaram exemplos de ocasiões nas quais pessoas demonstravam não possuir consciência disso.

    “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” 1 Coríntios 6:12

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