A loura da EPNB: Melissa passa necessidade e diz estar chateada com o julgamento virtual.

Por Isabela de Oliveira

À revelia de qualquer perigo, Melissa  aguarda diariamente — sempre ao lado de duas malas grandes e os mesmos trajes, os únicos que tem, segundo ela: um vestido, salto alto, o cabelo louro — uma ajuda que ninguém, nem ela mesma, sabe de onde vem. A loura, que fixou ponto no acostamento da Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB) não é garota de programa e não demonstra  doença psiquiátrica grave. Conhecida por quem trafega pela rodovia, Melissa tornou-se uma celebridade local cuja vida tem sido esmiuçada no Facebook.

“Não trabalho como garota de programa. A rua é pública, estamos em um país livre, então eu tenho liberdade de expressão e direito de ir e vir. Por todo o Brasil, as pessoas ficam nos acostamentos vendendo coisas. Eu não estou vendendo nada, e nem pedindo carona. Não cometi crime nenhum, não sou golpista e não estou fazendo nada de errado”, diz Melissa, natural de Guarulhos (SP), ao Extrapauta.

Na página Candanga e Vizinhança, no Facebook, um post sobre o comportamento inusitado da moça provocou mais de 240 reações, 277 comentários e 111 compartilhamentos. Nos comentários, os usuários da plataforma a acusam de querer fama, se prostituir e ter problemas mentais. Poucas são as palavras de apoio. “O pessoal tira foto, faz vídeo, mas eu não autorizei isso. Vão pegar a minha imagem e vão fazer o que? Me prejudicar? Estou sendo acusada sem provas, calúnia e difamação é crime também”, desaprova Melissa.

“Disseram que eu faço marketing ou quero cinco minutos de fama. Eu fui para a BR pedir ajuda porque, quando cheguei ao Núcleo Bandeirante, saí andando a pé pedindo ajuda para as pessoas. Mas elas têm preconceito, acham que me prostituo. Algumas mulheres aqui do bairro disseram que meninas vêm de todo o Brasil para arrumar um político”, conta.

 

 

Evangélica, frequenta uma igreja em Núcleo Bandeirante e vai aos cultos semanalmente. Ela conta que se ofereceu para passar roupas em grupos de mulheres no Facebook, mas sem sucesso. “Não tenho referências e ninguém está disposto a colocar um estranho dentro de casa, as pessoas não confiam”.  Solteira e com mais de 30 anos — ela prefere manter a idade em sigilo —, Melissa diz que cuidava da avó, que faleceu, e também do pai, policial militar que não resistiu a um câncer.

Chegou a Brasília há seis meses e, inicialmente, ficou na Vila Planalto. “Não passeei e nem conheci muita coisa da cidade, pois não sobra dinheiro para isso”, conta. Ao chegar ao Núcleo Bandeirante, passou cerca de um mês em uma parada de ônibus na Terceira Avenida. “Eu chorava porque as pessoas que passavam a pé me chamavam de puta. Na Avenida Central,  as vizinhas do ponto de ônibus chamavam a polícia diariamente para mim e me diziam coisas horríveis. Os moradores me diziam pra sair do Bandeirante, mas eu tenho direito de morar onde eu quiser”.

Melissa garante que é uma moça decente, mas está sem dinheiro. “Estou pedindo ajuda, e ajuda quem quer e pode. Tento ganhar dinheiro on-line, sou terapeuta motivacional e faço assessoria conjugal exclusivamente para homens casados pelo Whatsapp, com hora marcada. Não roubo marido de ninguém, meu trabalho é sério contra o divórcio e o adultério”, explica. A moça garante que fez cursos em São Paulo que a habilitaram para a profissão, mas não cita quais. Nega ser psicóloga, psiquiatra, psicanalista e obter qualquer título de “doutora”. No começo da carreira, atendeu, como voluntária, mulheres e casais  em associações de bairro e igrejas. Hoje, concede atenção especial aos homens. Ela diz o porquê:

“Por eu ter crescido no meio militar em São Paulo, percebi muitos homens que precisavam de ajuda. Não há no Brasil muitas políticas públicas com foco neles. Não sou machista, e não tenho nada contra mulher, mas acho que ninguém os ajuda. Eles têm maior mortalidade, mais vícios e não sabem expressar emoções. Dificilmente vão ao médico e consideram psicólogos coisa de gente doida. Então eu os aconselho com o maior respeito do mundo, os incentivo a se cuidarem melhor e a preservarem seus relacionamentos”, explica.

Família

O nome verdadeiro da moça não é Melissa, mas Lucila. Nas redes sociais, circularam boatos de que a família, mais especificamente uma prima, já havia tentado ajudá-la, mas sem sucesso.  Melissa, ou Lucila, desmente e diz que, hoje, o relacionamento com os familiares não é estreito. Sem contato com a mãe e irmão, ela diz que não acha certo pedir auxílio financeiro, pois acredita que as doações podem prejudicar os parentes financeiramente.

“Se eu tivesse uma família com quem eu pudesse contar, não estaria nessa situação. Se eu tivesse marido, estaria em casa com ele. Não estou tão a fim de voltar tão cedo para voltar a Guarulhos, e devo ficar no Bandeirante por tempo indeterminado”. Melissa prefere não revelar o motivo que a fez sair de sua terra natal. Somente os policiais que a abordam eventualmente sabem o que, de fato, aconteceu com a moça.

“Eu não morava com minha mãe, morava sozinha. Era no mesmo terreno, mas imóveis independentes. Somente a polícia sabe, e só eles devem saber, são assuntos particulares da minha família. Quero deixar claro que todos os policiais no Núcleo Bandeirante me trataram com muito respeito e educação. Também conversei com paramédicos do SAMU, bombeiros e resgate, e está tudo certo”.

Moradia

Sem condições de comprar mobília, pagar um aluguel e as contas da casa, Melissa prefere se hospedar em um hotel barato. Além disso,  não tem como comprovar renda para alugar um imóvel, nem tampouco indicar fiadores ou pagar aluguel antecipado como caução. “Não tenho onde morar, não tenho para onde ir, a quem pedir, estou sem dinheiro e pego diárias em um hotel, que custam R$50, porque não tenho como assumir as contas da casa, comprar uma cama e um colchão”, diz. Apesar de modesto, o hotel tem wifi, o que a permite atender seus clientes, quando eles aparecem, via internet.

Quando as diárias terminam, ao meio dia, Melissa desocupa o quarto e segue rumo à EPNB, onde tenta conseguir o dinheiro para a próxima estada. Por isso leva consigo as duas malas, onde estão todos seus pertences. “As pessoas estão mais preocupadas com as malas do que comigo. É fácil condenar, julgar, mas ninguém quer ajudar. Não sou animal que sobrevive só com prato de comida, preciso de dinheiro”. 

Antes do hotel, ela conta que pousou em um albergue. “É ruim ficar na rua, mas o albergue é ruim para caramba. Se a gente morrer lá dentro, eles não se responsabilizam. Quando chegamos, eles nos obrigam a assinar uns vinte papéis. Lá no albergue, a gente divide o quarto com pessoas que realmente são doentes mentais”. No Facebook, uma mulher ofereceu a própria casa à Melissa, que recusou por ser em Samambaia, e não Núcleo Bandeirante, o bairro de sua preferência. Outros sugeriram que ela procurasse um emprego, opção que foi descartada porque a loura prefere empreender e tem fé que a crise pela qual passa, eventualmente, terminará.

Última atualização às 16h41.

21 de abril de 2018