Adolescentes: mais atividade física, menos obesidade

Por André Pontes

Jovens espartanos se exercitando, pintura de Edgar Degas

Há pouco tempo, o tema atividades físicas para crianças e adolescentes era bastante discutido, e profissionais não sabiam exatamente quais eram as consequências de diferentes tipos de atividades nos corpos dos jovens. A partir dos anos 2000, estudos, registros e relatos se tornaram frequentes e, hoje, podemos afirmar de forma categórica: atividades físicas regulares são essenciais para a saúde física e psicológica de crianças e adolescentes.

Adultos sabem disso, mas como convencer essas pequenas (ou não tão pequenas) máquinas de contestação e rebeldia de que precisam praticar atividades físicas regularmente? Do fim para o começo, “regularmente” significa – do meu ponto de vista, como profissional – 50% da semana (no mínimo 4x). As atividades não precisam ser muito intensas, porém, devem cumprir alguns requisitos para que os esforços sejam efetivos. “Atividade física” quer dizer movimentos que promovam estímulos metabólicos com objetivo de gerar algum resultado positivo, ou seja, no caso de crianças e adolescentes, precisam estimular adequadamente a socialização (mesmo em esportes individuais), a disciplina e aspectos fisiológicos, como desenvolvimento ósseo, muscular e cardiorrespiratório.

Em determinada idade, cada indivíduo passa pelo chamado estirão de crescimento, que é a fase mais importante do ponto de vista físico. Estudos indicam que, praticando atividades físicas ou não, a absorção de nutrientes da dieta aumenta exponencialmente – a exemplo do cálcio, que tem sua absorção aumentada de 30% para 60-80% durante essa fase – e quando fazemos compras de comida no mercado, isso se reflete no valor da conta… Voltando ao assunto, o valor da atividade física nesse período abrange, além do bem-estar psicológico (liberação de endorfinas), o estímulo dos hormônios de crescimento e maturação (GH, testosterona e estradiol) e o desenvolvimento de habilidades de coordenação motora e concentração, com consequências positivas na postura e agilidade.

Um dado preocupante é que, segundo estudo da OMS em conjunto com o  Imperial College de Londres com mais de 130 milhões de jovens (isso mesmo!), o número de obesos de 5 a 19 anos de idade aumentou mais do que 10 vezes no mundo: de 11 milhões em 1975, para 124 milhões em 2016. No ano passado, ainda, 213 milhões dos participantes não atingiram índice de obesidade, mas foram considerados acima do peso. Essas crianças se tornarão adultos obesos que deverão arcar com todas as consequências associadas a isso – diabetes, hipertensão arterial e diversos tipos de câncer.

Muitos adultos se lembram de como eram contestadores e de comportamento difícil quando adolescentes. No entanto, informação e atitude quase sempre levam a um resultado positivo e os jovens passam a aceitar e agir de acordo, praticando regularmente atividades físicas.

Outra série de estudos mensurou que crianças cujos pais são obesos contam com aproximadamente 80% de chances de desenvolver a obesidade, mas quando nenhum dos pais é obeso as chances caem para 15%. Resumindo esses dados em fatos, adultos são os exemplos que as crianças e os jovens seguirão.

A seguir, algumas dicas para que jovens e adultos leiam juntos, cientes de que cada parte deverá assumir sua parcela de responsabilidade para o bem-estar e saúde de todos:

  • Atividades físicas devem ser praticadas de forma regular (4 ou mais vezes por semana). Isso não significa que a duração de cada sessão deva ser demasiadamente longa e acabe atrapalhando outras atividades, como os estudos. Algo em torno de 30 a 50 minutos por sessão fará uma enorme diferença na saúde, mas não pode ser desculpa para deixar de executar outras atividades necessárias;
  • A escolha da atividade deve ser do jovem, de forma a favorecer a regularidade, a satisfação e consequente dedicação para atingir resultados;
  • Praticar mais de um esporte, como se fosse um ciclo de experiências, em três ou quatro modalidades diferentes, pode despertar o interesse específico em uma determinada modalidade. A escolha em seguir o treinamento poderá ser uma opção interessante;
  • Melhorias na dieta proporcionam tanto benefícios físicos, como podem resultar em melhorias significativas na capacidade de concentração e habilidades motoras, que poderão trazer vantagens na vida profissional futura;
  • Não se preocupe com atividades físicas intensas. Há algum tempo pensava-se que o crescimento poderia ser interrompido por elas, mas a verdade é que ocorre exatamente o contrário. Há um porém nesse assunto – os limites físicos devem ser respeitados, ou as consequências podem ser lesões graves, porque as estruturas ósteo-articulares-musculares dos jovens ainda não estão preparadas para sobrecargas extremas;
  • O sono é um fator de altíssima importância para os jovens. Estudos sobre esse assunto demonstraram que, após 19 horas sem dormir, a capacidade de concentração e coordenação motora cai ao nível de uma pessoa alcoolizada com 4 doses de whisky, e esse efeito pode ser acumulativo de um dia para o outro. Na prática, os games e a internet de madrugada prejudicam severamente o desenvolvimento dos jovens, mais uma vez, pela bagunça hormonal que provocam.

Como palavra final, penso que os jovens e seus pais devam ponderar a respeito do que leram aqui, e entenderem que os atos de hoje terão consequências futuras, podendo influenciar suas vidas, seja de forma positiva ou negativa. Jovens são impulsivos, imediatistas e, frequentemente, inconsequentes (se não fossem assim, já seriam adultos), então cabe aos pais, como mediadores mais experientes, causar impacto de forma consciente por meio de suas atitudes. Muito difícil? Talvez sim, talvez nem tanto, mas de qualquer maneira, façamos nosso melhor.

Mens sana in corpore sano! Até a próxima!

10 de novembro de 2017