Ano Novo chacina velha

Por Major Aguiar

Toda passagem de ano é o início de um novo ciclo que, seja por superstição ou crença religiosa, nos enche de esperança e alimenta a crença de que este ano as coisas serão melhores. Estes sentimentos acabaram reforçados pela reviravolta política das últimas eleições, um clima de otimismo contaminou o país. Mas nada melhor para colocar nosso pés novamente no chão do que a realidade e, no Brasil, ela destrói sonhos, apaga sorrisos e separa famílias de forma violenta e repentina. Na primeira semana do ano os ataques das facções criminosas no Ceará são uma lembrança eloquente da submissão da população ao crime, cujo o sintoma mais estridente são os mais de 60.000 homicídios anuais.

O anúncio de uma mudança na política de alojamento de presos e a possível transferência de lideres de facções foi o estopim para transformar as ruas do Ceará em campo de guerra. Os bandidos sistematicamente tem incendiado prédios públicos, ônibus e até postes. Uma crise sem precedentes que fez com que o governador, mesmo sendo membro do Partido dos Trabalhadores, colocasse suas objeções politicas de lado e pedisse ajuda do Governo Federal, através do Ministério da Justiça e Segurança Pública, do ex-juiz Serio Moro.

Mas o assassinato de dois policiais militares no Rio de Janeiro deixam evidente que datas comemorativas ou convenções sociais são irrelevantes para os criminosos e, enquanto estávamos em confraternizações e festas, eles continuaram sua rotina maligna. O crime é um negócio que desenvolve-se com regras próprias obedecendo uma ética distorcida e, sob um curto horizonte de perspectivas, seus operadores precisam de gerar lucro e conquistar territórios a qualquer preço. A rotatividade de “funcionários”, principalmente pela morte prematura, a ausência de uma cadeia de transmissão de poder, como ocorre nas máfias tradicionais, tornam a manifestação criminal ainda mais caótica e cruel. Como se o quadro não fosse dantesco o suficiente a produção cultural e artística tem incutido no imaginário popular a noção glamourizada do bandido como agente de transformação social.

Apesar de termos registrado o menor número de policiais mortos dos últimos 24 anos, no Rio de Janeiro, provavelmente em razão do reforço bélico fornecido pelas tropas federais da intervenção, os números ainda são escandalosos e inaceitáveis. Em 2018 noventa e dois (92) policiais foram assassinados. Muito melhor que no ano anterior quando 167 profissionais tombaram. É importante ressaltar que mesmo quando não estão em serviço os policiais são executados em razão da profissão. As baixas são de guerra, estudo produzido pela Polícia Militar do Rio de Janeiro afirma que foi mais perigoso servir nas fileiras da corporação nas últimas décadas do que no exército americano em qualquer guerra do século XX. Em algumas regiões do estado as baixas chegaram a 40% do efetivo, entre mortos e feridos.

O assassinato do Soldado Daniel Henrique Mariotti, primeiro policial executado em 2019, durante um patrulhamento, nos mostrou que, apesar dos avanços, o massacre de ainda está longe de terminar. E como a realidade é aquela amiga estraga prazeres, logo em seguida, em menos de 48 horas, o soldado Miquéias Marinho Ribeiro também foi covardemente assassinado, em frente a casa de seu pai enquanto se preparava para ir trabalhar. Não é possível medir o tamanho da dor das famílias, muito menos o vazio que estes homens deixam, mortes prematuras resultado do descaso, da incompetência e da desvalorização dos policiais por parte de sucessivos governos, em todas as esferas. O crime não descansa, não respeita feriados, não tem misericórdia e a consciência de seus membros, cauterizada, e a inteligência, transformada em malícia, não podem produzir nada diferente de injustiça e dor.

Mas mesmo nas tragédias precisamos reconhecer avanços. Pela primeira vez na história a morte de um Policial Militar foi digna de nota presidencial e o próprio governador Witzel fez questão de estar presente ao funeral do soldado Marotti. A esperança é que não sejam atitudes oportunistas e que, pelo menos, a morte dos homens que defendem nossa sociedade possam ter a repercussão e importância devidas aos que dedicaram suas vidas em sacrifício. Aliás espero que o governador consiga diminuir de forma mais efetiva o número de policiais mortos por ano no estado, para que não precise comparecer a uma centena de funerais já no primeiro ano de governo.

A situação no resto do país também é de calamidade. Mas o estado do Rio de Janeiro é simbólico, em razão do domínio de comunidades pelo narcotráfico ou milícias, nestas regiões a ausência do poder estatal só é interrompida pelas incursões dos caveirões. Esquecidos, ou não lembrados, os moradores são subjugados aos desmandos das facções criminosas. Não raro vivem em uma zona de guerra, onde quadrilhas disputam territórios e a polícia tenta manter os combates sob controle.

Esta semana grande parte da elite artística, política e intelectual do estado está cobrando das autoridades os responsáveis pela morte da vereadora Mariele Franco, em razão dos 300 dias do crime. É inegável que o assassinato da vereadora não deve, não pode e tenho certeza de que não ficara impune. Mas quando se passarem 300 dias das mortes dos soldados Daniel Henrique Mariotti e Miquéias Marinho Ribeiro quem irá cobrar justiça? A história mostra que homens como eles não tem merecido atenção da imprensa, da classe artística, dos intelectuais, das ONGs de defesa de direitos humanos ou de qualquer um que não seja da família ou das corporações deles. Ou seja, além de condenados a morte também são encaminhados ao ostracismo, penas muito duras para quem honrou às últimas consequências o juramento:

MESMO COM O SACRIFÍCIO DA PRÓPRIA VIDA…

Seja no combate aberto às forças criminosas nas ruas do Ceará ou no garimpo intrincado da libertação da cidade do Rio de Janeiro só ganharemos esta guerra se atacarmos os inimigos corretos e abandonarmos a política de enxugar gelo, que tem sido paga com a vida dos policiais e de inocentes. É preciso que os marginais voltem a respeitar, e temer, as leis acabando com a impunidade, manifesta pelas políticas de desencarceramento, pelo garantismo exacerbado das decisões judiciais e, sem dúvidas, pelas saídas temporárias dos presídios. Os marginais precisam ver nos policiais a autoridade estado tendo a certeza que uma atitude criminosa será neutralizada com força necessária, mesmo que letal. A demonstração de força torna-se uma forma de dissuasão que diminuirá as situações de enfrentamento. O reconhecimento social dos profissionais também precisa fazer parte das políticas permanentes. É preciso atacar na gênese da questão, a partir das escolas, de forma a iniciar um movimento de transformação cultural que, em alguns anos, pode mudar o imaginário popular, para que no futuro tenhamos a decência de honrar nossos heróis.

9 de janeiro de 2019