Atividade física específica ameniza “aqueles dias” das mulheres

Por André Pontes

Se você nunca foi influenciado pela TPM é porque você nunca existiu. Por algum motivo comecei a me divertir durante os estudos desse assunto e acabei mudando um pouco a forma de escrever o texto de hoje (tomara que nenhuma mulher em fase lútea do ciclo leia isso). Em geral procuro ser bastante equilibrado entre técnica e simplicidade nos assuntos para o entendimento de todos, mas enquanto estudava comecei a reviver algumas situações inexplicáveis que só posso atribuir à essa bendita TPM.

A maioria de nós, homens, está cercado por mulheres, seja na vida pessoal ou profissional, e muitas vezes não entendemos o que está acontecendo quando somos atingidos súbita e inadvertidamente por uma rajada de munição verbal vinda do vulcão de estrogênio mais próximo. Nunca entendemos e nunca vamos entender todos os processos, muito menos o porquê de sermos alvos de tão violenta munição, mas a primeira dica que dou para quem se vê  numa situação como essa é: JAMAIS pergunte se uma mulher está naqueles dias! Fazendo isso você despertará a cólica do Godzilla adormecido nas profundezas e fará com que ele lance ataques com o poder para destruir toda a cidade de Nova York concentrados unicamente contra você.

Cientes do “perigo”, vamos definir TPM e entender as fases do ciclo menstrual e hormonal, lembrando que cada organismo é único e as reações podem ser bastante diferentes de mulher para mulher, e até mesmo mês a mês. De forma genérica, o ciclo é dividido em três fases: a primeira é a folicular, na qual há mais cansaço e menos disposição para exercícios (é a fase de sangramento), a fase ovulatória (melhoria das capacidades físicas e rendimento), e a fase lútea ou luteínica (fase da TPM, com sintomas muitíssimo variáveis, a depender do tamanho da explosão de progesterona).

TPM é um termo criado como sigla para Tensão Pré-Menstrual, que acontece quando o ciclo atinge seu final, na fase lútea. Segundo estudos, cerca de 70% das mulheres sofre distúrbios físicos e psíquicos considerados severos nessa fase do ciclo. Alguns poucos homens são afortunados o bastante para conviverem com mães, irmãs, esposas ou colegas de trabalho que estejam entre as 30% que não sofrem efeitos severos (ainda não conheci nenhum – esses alienígenas devem existir em algum lugar do universo), mas para a maioria dos homens, é como se uma placa tectônica começasse a se mover bem abaixo de seus pés e essas instabilidades durassem, com muita sorte, cerca de 5 a 6 dias, todos os meses. Os efeitos são tão diversos (heroicos cientistas conseguiram catalogar mais de 150 diferentes) que o termo foi atualizado para SPM, de Síndrome Pré-Menstrual, mas desde 1931 já eram definidos pelos neuro-psiquiatras como

um estado de irritabilidade e sentimento de desassossego e mal-estar de indescritível tensão

Se as fases do ciclo menstrual produzem tantas interferências no bem-estar físico e psíquico das mulheres, como encaixar a atividade física na rotina diária? A resposta inicial aqui chama-se, mais uma vez, regularidade. Obviamente o tipo de exercício e a intensidade com que são praticados influenciam nos resultados obtidos física, estética e psicologicamente. As cargas, intensidades e volumes (tempo de exercício) devem ser flexíveis para permitir a adaptação ao ciclo menstrual, mas praticar exercícios com regularidade, durante todo o ciclo é, comprovadamente, umas das melhores maneiras de reduzir os efeitos e desconfortos da SPM.

Considerando mulheres que praticam atividades físicas não profissionais como o público-alvo desse texto (mas homens também devem ler e entender!), aqui vão algumas dicas para que seu mês possa ser mais suave e você possa caminhar firmemente em direção aos seus resultados. Antes de seguir qualquer dessas dicas, lembre-se de avaliar sua resposta individual e adaptar seus treinos com o auxílio de um profissional que entenda sua situação (e que seja bastante paciente!). Vejamos antes uma explicação de como as atividades físicas podem ajudar muito a diminuir os sintomas da SPM.

– Durante o período de SPM (lúteo), as atividades devem ser mais leves e, preferencialmente, cíclicas, porque estimulam a circulação e movimentação de fluidos linfáticos. A atividade provoca um ligeiro aumento da temperatura corporal interna, o que leva ao relaxamento das diversas estruturas musculares e favorece a eliminação de excesso de líquidos que provocam inchaço. Esse mesmo relaxamento pode diminuir sensivelmente as cólicas provocadas pelas contrações uterinas. Exercícios com altas cargas ou muito impacto costumam ser bastante desconfortáveis e devem ser reavaliados nessa fase.

– Atividades físicas regulares promovem menor variação hormonal. Esse tema é extremamente complexo, pois as variáveis são quase infinitas, mas, em linhas gerais, a testosterona e a serotonina são os dois principais hormônios que sofrem estimulação positiva pela prática de atividades físicas regulares. A testosterona praticamente some em alguns períodos do ciclo menstrual, mas exercícios têm a capacidade ímpar de estimular sua produção. Concomitante, após os exercícios físicos, o organismo é inundado pelas endorfinas, responsáveis pelas sensações de relaxamento e bem-estar – endorfinas são a anestesia do Godzilla (ufa!).

– Existe um risco considerável de perda de coordenação motora e concentração durante a SPM. Dores e desconfortos constantes prejudicam a capacidade de concentração e a propriocepção (percepção do próprio corpo e movimentos). A dica é ficar atenta a isso e avaliar mensalmente a prática de exercícios que exijam força, coordenação e muita concentração durante a SPM. A incidência severa dos sintomas não é comum na periodicidade mensal, mas em alguns ciclos específicos isso pode acontecer, mesmo em mulheres que não sofrem regularmente com eles. É necessário adaptar corretamente as atividades e ter atenção máxima caso apareçam. Outra dica importante é diminuir o volume (tempo de cada sessão de atividades) caso os sintomas venham de forma mais severa.

– Mais uma vez, regularidade é fundamental! Praticamente todos os hormônios do organismo possuem seus antagonistas. Se existem os que atrapalham o desempenho físico, mental e psíquico, existem os que os estimulam. Falando de pessoas saudáveis, o estímulo biológico por meio de atividades físicas, alimentação, controle do estresse e repouso é capaz de, na grande maioria dos casos, equilibrar satisfatoriamente os hormônios agonistas e antagonistas. Se conseguirmos equilibrar esses hormônios de forma regular, melhor ainda!

– Por último, respeite seu corpo, mas não se entregue! Tenho certeza de que existem dias em que o corpo pede para ficarmos na cama. Nesses momentos é especialmente importante pensar no resultado imediato, e quero dizer que, em crises de SPM, o foco deve ser nas endorfinas e na sensação de relaxamento do final das atividades físicas. Juntar aquele resto de energia e sair para treinar é uma vitória pessoal conquistada no momento em que você pisa do lado de fora. Considere isso e reúna a energia necessária para o treino do dia – as recompensas virão!

Ah, ia me esquecendo! Homens, jamais entenderemos o que as mulheres passam, então, nada de forçar a barra. Se quiser encorajá-la, seja parceiro e a faça pensar no relaxamento e no bem-estar como resultado final, nunca no treino. #ficaadica

Mens sana in corpore sano

! Até a próxima!

1 de novembro de 2017