Brasília aos olhos dos gênios: Lúcio Costa, Niemeyer e Clarice Lispector

Por Tânia Battella

Duas “homenagens dignas de serem feitas em dobradinha: a dos 30 anos da inscrição de Brasília pela UNESCO, como Patrimônio Cultural da Humanidade, e a dos 40 anos da morte de Clarice Lispector. Os gênios da criação de uma cidade, de um modo diferente de viver, de urbanismo único, de uma cidade parque, de uma arquitetura digna de uma capital federal, criações para um brasileiro do futuro, para uma cultura que ainda alcançaremos. Todos os méritos dessa criação reconhecidos e identificados pela sensibilidade de uma mulher que também viveu “antes de seu tempo”. Talvez este seja o segredo de tamanha identidade.

Clarice, quando visitou Brasília, escreveu uma crônica que reputo a descrição de maior sensibilidade sobre a cidade. Soube captar a essência de Brasília, o que Lúcio Costa deixou no urbanismo da capital como marca registrada indestrutível, tamanha sua consistência.

Tive enorme dificuldade ao tentar identificar, na Crônica de Clarice, o que destacar para escrever este texto. Assinalei, praticamente, tudo. Pois em cada frase ela conseguiu expressar, de seu modo peculiar, a liberdade que a cidade nos transmite, a veracidade de uma cidade do futuro, reportando-se a sua existência em um passado, habitada por uma raça de “brasiliários” diferenciados, a importância do céu e do horizonte, a marca do vazio, do não construído sobre o construído, a ausência de quinas, esquinas, da mesmice, uma cidade nem feia nem bonita, mas diferente, enfim, todas as características essenciais do projeto de Lúcio Costa expressos pelos sentimentos de uma sensível escritora – Clarice Lispector.

Confesso que a primeira vez que li a crônica, já urbanista e arquiteta, profissional atuante na defesa da preservação de Brasília, a primeira frase me comoveu: “Brasília é construída na linha do horizonte”.

A importância do horizonte na cidade é tamanha, que na própria legislação de proteção patrimonial existe a obrigatoriedade de preservar a “visibilidade” dos bens tombados. Assim começa a crônica, assim começa a necessidade de proteger esse patrimônio: por sua visibilidade; preservar a visibilidade do horizonte. E os estudos técnicos, sérios, posteriores, sempre levaram em conta a importância do horizonte em Brasília.

“Construções com espaço calculado para as nuvens”. Essa foi a forma que Clarice externou o sentimento dos espaços vazios, da importância do não construído tão importante quanto o construído. Em Brasília as áreas non-aedificandi mereceram, na legislação de tombamento, especial atenção, devendo ser preservadas como tal, desde como estavam quando editado o Decreto que subsidiou a inscrição do projeto da cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, em 1987.

Outra expressão de Clarice que externa com exatidão uma das características fundamentais do projeto de Brasília é: “ – Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. “ É a imagem perfeita da cidade parque, projeto de Lúcio Costa, onde o verde é tão importante que se sobrepõe às construções e se confunde com o humano.

“ Brasília ainda não tem o homem de Brasília. – Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto.” Essa expressão de Clarice diz tudo sobre a cidade que , sem ser bonita nem feia, mas “meu espanto”, demonstra sua singularidade, incomparável, senão com sua insônia, com sua “vivência”.

Essa expressão da crônica me faz lembrar certa vez, em consulta a Lúcio Costa, pessoalmente, comentando sobre uma observação que há época ocorreu, que Brasília não tinha esquina, não possibilitava encontros das pessoas, por um certo profissional que por aqui passou, Lúcio Costa apenas externou: “Brasília foi feita para ser vivida”… Para mim, que conheci as características da cidade no começo de sua existência, onde as políticas públicas encontravam espaços para perfeito funcionamento, entendi imediatamente o que quis dizer. A saúde pública funcionava perfeitamente; ninguém procurava hospital nem clínicas particulares. Tudo se resolvia no “ Hospital Distrital”. A educação pública era modelo para o resto do Brasil. As escolas-classe e jardins de infância, dentro das superquadras, ao alcance dos olhos e da voz, na escala humana que o projeto da cidade propiciou aos moradores de Brasília, não levavam ninguém ao ensino particular; escolas particulares eram exceção. Os melhores alunos e profissionais eram oriundos da rede pública. As áreas verdes dentro das quadras e nas entrequadras, mesmo antes de receberem os equipamentos públicos de esportes, já ofereciam o lazer e esportes públicos à criançada, que faziam desse espaço público, seu quintal. Segurança? Todos saíam sem preocupação. Os “candangos”, no aeroporto – de madeira – tiravam dos bolsos maços de dinheiro para comprarem suas passagens… E a solidariedade reinava na cidade. Pedir e oferecer carona era trivial. Essa é a cidade criada por Lúcio Costa. Para políticas públicas eficientes e para um povo trabalhador e bem remunerado. Igualmente remunerado.

A genialidade de Lúcio Costa na criação do projeto urbanístico de Brasília e as obras esculturais de Oscar Niemayer, que dão à capital federal o devido status de capital, reconhecidamente pela Humanidade, tiveram, por estes, seu caminho traçado de tal forma que a capital se instalasse definitivamente e que o conceito da cidade fosse fincado no chão e na mente dos brasilienses assim como Clarice descreve que teria sido para os “brasiliários”, em tempos de Roma, mas que ainda surgirão. E a cidade tem seus mistérios. E as curvas das obras de Oscar nos dão a exata impressão de que tudo “fica à beira .”:

“A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. – Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. – Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece na crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. “

Como cidadã, profissional de arquitetura e urbanismo, defensora desse Patrimônio que é Bem Cultural da Humanidade, moradora da cidade desde 1960 registro minha gratidão aos gênios Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, pelo legado que nos deixaram. E à Clarice Lispector, pela profunda sensibilidade em compreender tudo de essencial e de importante que esses gênios da arquitetura e do urbanismo nos permitiram desfrutar com tanta alegria e orgulho.

13 de dezembro de 2017


1 Comentário

  1. A propósito das esquinas, sempre que ia ao Rio a trabalho pelo Iphan, especialmente na hora que descíamos para almoçar, eu parava na primeira esquina e ficava espiando prá todos os lados, até prá e cima e prá baixo. Então, quando me perguntavam o que tinha acontecido, porque aquilo, eu respondia: – preciso saber porque vocês tem tanta fixação por esquinas, além das inflexões da caminhada e de existirem algumas até que bem bonitas. Alguma ironia e graça desarmam. E podíamos então conversar bastante sobre os espaços de vivência de Brasília.

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