Caminhos para combater a perda de massa óssea

Acabei de finalizar esse texto. Fazia algum tempo que eu não estudava tanto a respeito de um assunto aparentemente simples. Osteoporose, osteopenia, perda de massa óssea e metabolismo de cálcio não têm absolutamente nada de simples, mas, como sempre, vou explicar de maneira que todos possam entender o que ocorre e como melhorar sua qualidade de vida a partir da informação atualizada. Partindo do princípio de que informação para nada serve sem ser colocada em prática, continuarei a oferecer dicas no final do texto baseadas no que aprenderemos até lá.

Para começar, temos que ter em mente que a prática de atividade física regular é o plano de saúde mais barato que existe, mas se você não paga (ou não pratica), os juros e correções serão bastante altos – a saúde cobra seu preço. Então vamos ao assunto de hoje:  a diminuição da densidade mineral óssea (DMO) ocorre sob influência de vários fatores e é uma das consequências da vida sedentária. Vou me ater somente a esse assunto para explicar mais a fundo o processo.

Osteopenia e osteoporose são palavras cada vez mais comuns no vocabulário brasileiro, mas como sempre acontece, a imensa maioria das informações nos remete a soluções paliativas e não nos permite entender a raiz do problema. Vemos pessoas dizendo que precisam ingerir mais cálcio, mas não sabem que esses acometimentos debilitantes se caracterizam mais pela perda de mineralização óssea do que pela falta de cálcio na alimentação.

O cálcio é um mineral de extrema importância, já que atua diretamente em todas as contrações musculares, desde as involuntárias, como nossa respiração, batimento cardíaco ou um simples piscar de olhos, até os movimentos voluntários. Provê, também, a sustentação do corpo por meio da formação do esqueleto, bem como atua no processo de permeabilidade das membranas celulares, em diversos processos de secreção de hormônios, na regulação da pressão arterial, na coagulação. Diversos estudos atuais, até mesmo, ligam o desequilíbrio de cálcio à obesidade.

Enfim, um mineral extremamente importante sem o qual nosso organismo simplesmente não funciona, e assim como todos os minerais, nosso corpo não é capaz de sintetizá-lo. Vamos entender: se o cálcio é tão importante às funções vitais e o corpo não é capaz de produzi-lo, então precisamos armazená-lo em algum lugar. Nossos ossos são o maior dentre todos os nossos depósitos orgânicos de cálcio (96%), e para que esse depósito seja funcional, o cálcio precisa ser acumulado ou removido de acordo com as nossas necessidades individuais, contando, para essa movimentação, com três diferentes células ósseas – osteoblastos, osteoclastos e osteócitos. Nos ossos, as células que formam novas estruturas são os osteoblastos, as que removem excessos e células mortas são os osteoclastos, e as que regulam os minerais no tecido ósseo são os osteócitos. Ossos saudáveis são resistentes a impactos por terem um certo grau de flexibilidade, e esse equilíbrio entre dureza e flexibilidade depende exatamente do equilíbrio adequado entre esses três tipos de células.

Quando falta cálcio circulante e biodisponível (na forma que o organismo consegue usar) para as funções orgânicas, nosso corpo começa a consumir dos nossos ossos, tornando-os lentamente mais fracos. Devemos estar cientes de que a perda de massa óssea é assintomática e silenciosa, tornando as medidas preventivas mais do que importantes. Se conhecermos bem o processo, saberemos como diminuir consideravelmente o processo degenerativo e nos mantermos saudáveis até o fim dos nossos dias. A seguir apresento uma lista dos principais fatores que promovem perdas e/ou diminuem a biodisponibilidade do cálcio:
– Avanço da idade. A partir dos 35 anos, em média, todos nós sofremos uma queda gradual de massa óssea, massa muscular e de colágeno, principalmente por causa da mudança de níveis hormonais e estímulos físicos fracos ou insuficientes. Atividades físicas, alimentação adequada, qualidade do sono e stress têm influência bastante considerável sobre essas perdas (e outras também) porque têm capacidade de mudar nossa fisiologia e metabolismo.
– Fatores hereditários. Alguns estudos apontam influência do fator genético superior a 60% em relação à perda de densidade mineral óssea, ao passo que outros fatores contribuem com 30 a 40%. Isso quer dizer que casos frequentes de osteoporose na família, especialmente de segunda geração (avós – netos), implicam na necessidade de acompanhamento especializado mais próximo, e que, apesar disso, os outros fatores relacionados ao estilo de vida devem sempre ser observados e controlados com a devida atenção.
– Alterações hormonais. Desequilíbrios hormonais podem ter resultados severos em nosso organismo. Nos homens (exceto em caso de problemas de saúde graves) a incorrência de osteoporose é muito menor que nas mulheres. O sexo feminino sofre muito mais alterações hormonais e com periodicidade mensal pelo ciclo menstrual e tem menor nível de testosterona. Quando as mulheres entram na menopausa, os níveis de estrógenos variam tanto que provocam picos de perda de massa óssea (fora todo o resto!) e aceleram o processo de forma definitiva, podendo chegar a 2% de perda de cálcio ósseo por ano após o início desse período. Lembra dos três tipos de  células ósseas? Pois alterações hormonais interferem no equilíbrio entre elas, fazendo com que uma funcione mais do que a outra e nossos ossos mudem de configuração de acordo.
– Uso de medicamentos. Diversos medicamentos, em especial os corticoesteróides e diuréticos, podem atuar no equilíbrio de cálcio orgânico e biodisponível. Explicando de forma geral, os corticoides prejudicam a absorção e fixação do cálcio nas células além de estimular a excreção desse mineral, ao passo que os diuréticos baixam consideravelmente os níveis de potássio, que por sua vez influencia no equilíbrio de cálcio. Pessoas que usam esse tipo de medicamentos devem ser acompanhadas por uma equipe médica e estar cientes dessas consequências, possíveis perdas e interações entre equilíbrio de cálcio e medicamentos.
– Sedentarismo. Nosso corpo funciona sempre buscando o equilíbrio e a economia de energia. O sedentarismo desestimula o uso do cálcio (necessidade de ossos mais fortes e contrações musculares vigorosas) e o corpo entende que não é necessário ter um estoque tão grande, liberando lentamente o cálcio orgânico que, teoricamente, não precisa ser estocado por falta de uso. Em sentido contrário, exercícios que exijam fortes contrações musculares exigem maior uso do cálcio, assim como atividades que gerem impacto sobre os ossos – o corpo entende que precisa se adaptar a essa nova situação e retém mais cálcio da alimentação que, supomos, fornecerá a quantidade adequada para uso imediato e estocagem.
– Alimentação inadequada. Ligando esse tópico ao anterior, as atividades físicas geram a demanda e a alimentação deve supri-la de forma a adequar o aporte de cálcio ao nível de atividades. Ressalvas devem ser feitas em relação à alimentação rica em gorduras e refrigerantes, pobre em fibras e, obviamente, pobre em consumo de cálcio. Dietas pobres em fibras prejudicam enormemente a digestão, já que gorduras tendem a se acumular lentamente na parede intestinal formando uma camada que dificulta cada vez mais a absorção de nutrientes para a corrente sanguínea. Os refrigerantes possuem dois fatores altamente prejudiciais ao cálcio: o ph extremamente ácido e o fosfato (também presente nos acidulantes de diversos alimentos industrializados), que têm a capacidade de alterar a forma biodisponível do cálcio e torná-la inútil para uso orgânico (simplificando ao máximo, é isso que acontece).
– Desequilíbrio dos níveis de Vitamina D e Magnésio. A vitamina D tem papel essencial na absorção de cálcio, e estudos mostram que na total ausência de vitamina D, menos de 10% do cálcio ingerido é absorvido. O magnésio tem atuação fundamental na fixação do cálcio nos ossos e no relaxamento muscular (lembra que o cálcio está presente na contração? O magnésio faz o efeito contrário, por isso precisam estar em equilíbrio). No caso de deficiência de magnésio, ocorre um desequilíbrio de líquidos dentro e fora das células, e ao invés de o cálcio se depositar, é eliminado e acaba sendo expelido ou se acumulando em outras partes do organismo, gerando consequências desastrosas (arteriosclerose, cálculos renais, cistos, trombos, etc).
Para concluir, vamos fazer um resumo rápido de tudo o que vimos:
– O cálcio serve para muita coisa no nosso corpo, mas para exercer bem suas funções, precisa estar em equilíbrio com diversos outros nutrientes (em especial a Vitamina D e o Magnésio, além do Zinco, Ferro e Fósforo, que não abordamos);
– Os ossos são depósitos de cálcio para o nosso corpo e, não somente, formadores do nosso esqueleto;
– O avanço da idade após os 35 anos altera nosso equilíbrio hormonal e aumenta proporcionalmente a necessidade de cálcio. Atividades físicas regulares associadas à dietas equilibradas, menos stress e boa qualidade de sono diminuem o ritmo das degenerações, nos mantendo saudáveis por muito mais tempo;
– Evite os excessos tanto quanto os deslizes regulares – maus hábitos praticados diariamente são tão ou mais nocivos quanto um excesso;
– Osteoporose é muito debilitante, causada principalmente pela perda de mineralização e não somente pela falta de cálcio na alimentação – atenção redobrada ao que provoca perdas;
– Não coloque sua saúde na mão de qualquer um. Nada de fazer as coisas por sua própria conta sem o conhecimento necessário, porque isso pode muito mais atrapalhar do que ajudar. Além de informação, busque profissionais competentes para áreas essenciais – médica, nutricional e de atividades físicas.
Mens sana in corpore sano! Até a próxima!

4 de dezembro de 2017


Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*