Conic, sem preconceitos e com muita história

Por Eduardo Monteiro

Setor de Diversões Sul - CONIC - 2015 - Foto: Divulgação

Esta é a primeira parte da saga do Setor de Diversões Sul, ou simplesmente: Conic.

Esboço do arquiteto Lúcio Costa. Setores Comercial Sul e Norte. Foto: Internet -Divulgação

Do traço inovador do artista surge a obra de arte.  O futuro museu a céu aberto via nascer, no final dos anos 1960, os Setores de Diversão Sul (SDS) e Norte (SDN), com a proposta de centros de diversão e cultura. Seu criador não poderia ter escolhido morada mais nobre: o Marco Zero, ali na junção dos Eixos Rodoviário e Monumental no coração de Brasília. O ponto mítico de onde a capital começou a ser construída.

Marco Zero. Traçado inicial da junção dos dos Eixos Rodoviário e Monumental. 1956 – Foto: Mário Fontenele – Internet
Região central, futura Plataforma Rodoviária, ao centro o Marco Zero. Foto: Internet

Lúcio Costa via na Plataforma Rodoviária – ponto de união entre os dois Setores, a semelhança com uma praça interiorana tendo à sua frente a igreja matriz, ponto de encontro de trabalhadores ao final do expediente para desfrutar momentos de descanso e relacionamento social. Um local aprazível com a monumental vista da Esplanada dos Ministérios. Para os centros de diversão e cultural o arquiteto imaginava   vielas, praças, travessas e ruelas, que abrigassem cafés, bares, livrarias, boates, teatros, cinemas, tudo inspirado na efervescência e no charme da rua do Ouvidor, Champs-Élysées, Times Square ou Veneza.

Plataforma Rodoviária, ao fundo, lado direito SDS em construção e SCS – 1958/59 – Foto: Arquivo Público do DF.

 

Área central de Brasília, antes do início das construções do Conic e Conjunto Nacional. Foto: Internet

 

Um sonho, dois destinos

O projeto elaborado por Costa (um dos poucos dentro de Brasília), foi uma estratégia para a rápida execução e ocupação do centro da cidade. Composto por um único bloco ao longo dos dois lados do Eixo Monumental, estruturado na forma de um quarteirão, vazado na porção central e revestido com letreiros e luminosos. Tal concepção de espaços abertos foi atingida parcialmente apenas no SDS (CONIC), enquanto os letreiros e luminosos foram implantados apenas no SDN – Conjunto Nacional.

Construção do SDS, em primeiro plano edifício Venâncio VI. Início da década de 1970. Foto: Internet

 

Imagem aérea, a partir do SAS. Edifício do BRB ao lado esquerdo e à direita SDS. Década de 1970. Foto Arquivo Público do DF

 

As comparações entre “primo pobre” (Conic) e “primo rico” (Conjunto Nacional), são inevitáveis, apesar de desagradar – e muito – à comunidade do SDS, que rejeita a alcunha de “patinho feio”. Mas por que os dois empreendimentos tomaram rumos tão diferentes? Há muitos fatores a serem considerados, mas o fato de o Conjunto Nacional ter sido adquirido por um único dono, enquanto o Conic tem quinze proprietários, com múltiplas ideias e interesses, é sem dúvida uma das causas principais. E aí? Mais à frente nós voltaremos a esse ponto.

Região central de Brasília, em primeiro plano à direita Conjunto Nacional e em seguida SDS. Década de 1980. Foto: Arquivo Público do DF

O primeiro edifício inaugurado no SDS foi o Cine-Teatro Venâncio Jr, em 1969, logo depois outros vieram, assim como as embaixadas, e com elas um público sofisticado, que frequentava os cafés, lojas e as ótimas livrarias, tudo parecia caminhar como planejado por Lucio Costa. Em 1972, enquanto as obras do SDS continuavam, o Setor de Diversões Norte inaugurava a sua primeira etapa.

 

Primeira etapa do Conjunto Nacional (SDN). Final da década de 1970. Foto Arquivo Público do DF.

Considerado na década de 1970 um dos principais redutos da elite da capital, após a saída gradual das embaixadas em consequência da conclusão de suas respectivas sedes, o Setor de Diversões Sul, inicia um processo de mudança em sua rotina com o surgimento de clubes noturnos, bares pouco sofisticados dando início à degradação da área, que aumentou com a chegada de boates de “strip-tease”, casas de massagens e cinemas pornôs. À noite se tornou antro de prostituição e tráfico, por isso, na década de 1980, ganhou o apelido de “boca do lixo”. Na medida em que espanta a classe média do Plano e é esquecido pelas autoridades locais, vai se tornando inseguro e pouco convidativo, enquanto o Conjunto Nacional se consolida como grande shopping.

Região central de Brasília, sentido sul-norte. Ao centro à esquerda o SDS (Conic), década de 1970. Foto: Arquivo Público do DF.

A partir da década de 1980, o Conic passa a ser um centro comercial popular, bem distante do projeto de Lucio Costa. Contudo, o espaço ganha outras e mais variadas cores, sem perder a sua vocação de espaço multicultural e diverso. Surgem movimentos sociais e culturais ocupando o espaço de maneira ordeira e plural. Sem protagonismos desse ou daquele grupo sociocultural. Mas até essa convivência democrática tem momentos de conflitos, como veremos mais adiante.

Por que Conic?

Construção do edifício Conic, atual Boulevard Center, década de 1970. A sinalização da obra com o nome da construtora, acabou sendo decisiva para popularizar o nome: Conic. Foto: Construtora Conic

O nome CONIC veio de Companhia de Construção Indústria e Comércio, construtora criada em 1950, com sede em Recife, e responsável pela  construção do edifício Conic, atual Boulevard Center, que por sua localização (exatamente na fachada mais vista e fotografada de Brasília), acabou emprestando o seu nome a todo o Setor de Diversões Sul, que passou a ser conhecido como CONIC. Em Brasília, a empresa também executou o auditório do quartel general do exército (projeto do arquiteto Oscar Niemeyer) e a embaixada do Canadá.

Novos Rumos

A fachada mais vista e fotografada de Brasília. Ponto preferido para reportagens. Do lado esquerdo o Banco Central, do direito o Conic. Final da década de1990. Foto: Internet

O Conic é uma espécie de “fênix candanga”, que emerge das cinzas e se reinventa. Segundo a prefeita do Conic, Flávia Portela, é necessário interesse governamental para reformar o espaço. A Prefeitura, em parceria com o Conselho Comunitário de Segurança- Conseg, desenvolveu um projeto de Resignificação do Centro de Brasília, que tramita no GDF, com a proposta de se criar uma PPP para revitalizar a região. “Pela calçado do Conic passam em torno 500 mil pessoas por dia e circulam por aqui em torno de 15 mil. É a esquina cultural do DF. Brasília precisa retomar suas características originais. Não temos mais espaço para amadorismos. Toda a cidade ganhará com esse projeto, com o Dulcina de Moraes outra vez em pleno funcionamento, os cinemas, novos espaços e os quase 30 auditórios que se encontram no setor”, diz.

Curiosidades
O termo Marco Zero da Capital Federal, também é usado para designar o local do primeiro ato concreto da proposta de transferência da capital, ele fica a 40 quilômetros de distância em Planaltina, no Morro do Centenário. Um obelisco medindo 3 metros e 75 centímetros de altura foi erguido e inaugurado em 7 de setembro de 1922, por ocasião do 1º centenário da Independência do Brasil.

Conhecido também como Conic é o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC nasceu no ano de 1982, em Porto Alegre (RS). Sua criação é fruto de um longo processo de articulação entre as igrejas Católica Apostólica Romana, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Episcopal Anglicana do Brasil e Metodista.

Nos próximos capítulos:

  • O dia a dia da “Esquina Cultural de Brasília”14
  • Personagens marcantes
  • Grandes eventos

e muito mais…

 

 

14 de julho de 2017