Do lago Paranoá ao lago Michigan: velejadora de Brasília conquista campeonato mundial de vela paralímpica

Por Rogério Sampaio

Ana Paula Marques, uma gaúcha simpática e determinada, radicada em Brasília, conquistou, aos 35 anos, o Campeonato Mundial de Vela Paralímpica, realizado em Sheboygan, nas águas do lago Michigan (o quarto maior lago de água doce do mundo), no estado de Wisconsin (EUA), e que reuniu mais de 90 competidores de 39 nações em três classes – Hansa 303, 2.4m OD e RS Venture, entre os dias 18 a 22 de setembro de 2018.

Ana Paula sagrou-se campeã mundial na Classe Hansa 303, onde competem atletas portadores de amputações, paralisia cerebral e lesões medulares. No caminho da conquista do título máximo, a velejadora de Brasília foi vice-campeã mundial em 2017, no campeonato disputado em Kiel, na Alemanha. Em 2016, já havia sido escolhida a melhor atleta paralímpica e destaque do ano na modalidade vela no Prêmio Brasília Esporte 2016, do Governo de Brasília. Ela ficou paraplégica após ser atingida na coluna por um tiro quando tinha apenas 20 anos.

A equipe de Vela Adaptada do Brasil foi formada por cinco atletas: Ana Paula e Helivelton Anastácio – que terminou o Campeonato Mundial com um brilhante 7º lugar geral na Categoria Hansa 303 masculino – representaram o DF; Antônio Marcos e José Matias, de Belo Horizonte e Antônio Rosa, do Rio de Janeiro.

Em depoimento exclusivo, passadas as justas comemorações e descanso, ao Blog Oceano Candango, Ana Paula fez um relato dos enormes obstáculos superados para participarem do Campeonato Mundial de Vela Paralímpica.

“Foram, ao todo, dez dias em solo americano sendo, efetivamente, cinco dias de regatas, tudo temperado com muitas dificuldades e a maior de todas, como já sabemos, foi a corrida para obter recursos e patrocínios que proporcionassem nossa ida ao campeonato”, explica Ana Paula.

Segundo a velejadora foi necessária a montagem de uma verdadeira engenharia financeira que desse conta das despesas com viagem, hospedagem, alimentação, pagamento de taxas e inscrições, além do barco, o mais importante, que teve de ser alugado em Sheboygan, sede da competição.

“Para conseguirmos chegar até os EUA, tivemos que disponibilizar recursos próprios, ajuda de amigos, vaquinha na internet, vendas de rifas. No começo não foi fácil, mas depois conseguimos o apoio fundamental do Compete/DF, que bancou as passagens dos atletas do DF, e da Proseg, que nos forneceu o seguro viagem, indispensável para a participação no evento”, conta.

Determinação

Emocionada, Ana Paula relembra que o lema adotado pelos velejadores do DF, desde o início da empreitada foi “desistir, nunca!”, e que este foi o foco do início ao fim, a despeito das dificuldades, haja vista que o apoio obtido cobriu o minimamente necessário para uma participação digna. Mas, como podemos ver, agora, a determinação, o foco a superação cotidiana e um pacto de união inabalável de toda a equipe, realmente fizeram a diferença.

” Com este espírito de luta, união e foco, fomos cumprindo nossos objetivos, passo a passo, escorados no apoio mútuo, as dificuldades e alegrias sendo igualmente compartilhadas, o que, ao fim e ao cabo, foi determinante para reafirmar o destaque da vela adaptada brasileira, e da brasilense em particular, no cenário da modalidade em nível mundial. Demonstramos, de forma cabal, que com determinação, coragem e entrega total podemos alcançar qualquer sonho, por mais distante que ele possa parecer”, exaltou Ana Paula.

Rumo à vitória

A velejadora destaca que suas pretensões não eram modestas, afinal conforme ela mesmo diz, seu objetivo além de competir em alto nível, é o de sempre buscar as primeiras colocações.

“Fui para este campeonato com o objetivo de, pelo menos, assegurar minha posição de vice-campeã mundial, obtida na edição anterior, na Alemanha e consigo sair do evento como campeã mundial feminina de Vela Paralímpica. A emoção da conquista é uma coisa que ainda não consigo descrever, uma explosão de sentimentos”, comemora.

Espírito vencedor

A estratégia de encarar cada regata como se fosse a decisiva, mostrou-se acertada e levou Ana Paula até a disputa da “Medal Race”, onde as quatro melhores colocadas disputavam diretamente o título de melhor velejadora do mundo, onde, além da técnica apurada, prevalece o espírito do tudo ou nada, aquela ousadia e destemor que diferencia e consagra as verdadeiras campeãs.

“Após nove regatas, com vários níveis de dificuldades, incluindo ventos fortes, competidoras igualmente capacitadas e que velejavam com estruturas nitidamente superiores, chegar à disputa da ‘Medal Race’ foi a confirmação de que todo o sacrifício, todas as dificuldades haviam ficado para trás. Agora dependia só de mim e de toda a bagagem de experiências acumuladas, que sempre nortearam a minha vida, que nem uma bússola, confirmando que estava na direção certa”, constata.

Referência

O sucesso dos velejadores candangos, Ana Paula e Helivelton Anastácio, apesar das dificuldades e percalços, não pode ser creditado a um fato isolado. Se o lago Paranoá hoje é um pólo de referência mundial, muito se deve à implantação em Brasília, em 2009, do Projeto Vela Para Todos, capitaneado pela então criada Federação Brasiliense de Vela Adaptada – FBVA, tendo à frente Mauro Osório, presidente, e Bruno Guaraciaba Pohl, coordenador técnico, além de vários outros apoiadores, e dedicados voluntários, que implantaram e ampliaram a prática da vela adaptada, nas águas do lago Paranoá, para que pessoas, portadoras de qualquer tipo de deficiência praticassem um esporte lúdico e através de uma nova proposta de mobilidade pudessem encontrar uma nova motivação para desfrutar um estilo de vida, com muito mais qualidade, saúde, e valores que só o esporte oferece.

“É uma conquista repleta de significados e ensinamentos, explica o coordenador técnico da FBVA, Bruno Pohl. Brasília e o Lago Paranoá cravaram, de forma definitiva e inédita, o fruto de um árduo trabalho que remonta há dez anos. É um trabalho de formiguinha, poucas vezes compreendidos pelo peso social e inclusivo que carrega. Que as conquistas de nossos velejadores não sejam apenas um brilho extemporâneo, mas que sirva de forma definitiva de que esporte não é despesa, é solução, ainda mais quando traz consigo a inclusão daqueles que estão à margem das políticas públicas realmente sociais”, concluiu Pohl.

25 de setembro de 2018