Eleições 2018: o ano dos candidatos militares?

Por Caroline Cintra

Tendo como pré-candidato à presidência da República o deputado federal Jair Bolsonaro, os militares pretendem lançar mais de 600 candidatos aos mais diversos cargos políticos pelo Brasil. A força da categoria ascendeu ainda mais com o destaque do parlamentar nas pesquisas eleitorais, que chega a 19% da preferência dos votos, em cenários que não aparecem o ex-presidente Lula, de acordo com a Datafolha. No Distrito Federal, o grupo já apresenta oito concorrentes a deputado distrital, deputado federal e até mesmo a governador.

A presença dos militares nesta eleição não é novidade, mas a quantidade de pré-candidatos e a forma como estão se articulando é diferente das eleições anteriores. Além dos discursos em defesa do legado militar, eles pregam a necessidade de novos nomes que contribuam para o processo de renovação da política brasileira, já que a população está cada dia mais descrente dos atuais representantes políticos.

Bastante conhecido na política local por participar de outras eleições, o Guarda Jânio é um dos pré-candidatos militares declarados para este ano. “Como em toda categoria necessita de uma representatividade, os militares não são diferentes, principalmente os militares do DF, pois a categoria é regida por leis federais, mas são administrados pelo governador local, onde pode ou não ajudar a categoria”, disse.

O pré-candidato na disputa pelo Buriti, General Paulo Chagas, acredita que neste ano é natural que existam mais candidatos militares em razão do prestígio que conquistaram na sociedade, ao contrário, da desconfiança, segundo ele, angariada pelos políticos tradicionais.

O coronel Charles Magalhães acredita que o governo militar pode resgatar valores que foram perdidos na sociedade

Além destes fatores, o pré-candidato a federal, Coronel Charles Magalhães, ressalta que a força da categoria também vem da formação militar. Para ele, as convicções e características ligadas ao militarismo podem ser a solução para o país, além de trazer de volta os valores que, segundo ele, foram esquecidos.

“Nós valorizamos a ética, a moral e o patriotismo, características que estão esquecidas no país. Com isso vamos fazer a diferença. Outro ponto que destaco é o alto nível conhecimento sobre gestão que nós militares temos. Por exemplo, um coronel tem plena condição de ser presidente da República. Tudo isso aprendemos nos ensinamentos militar”, declarou.

 

Estratégias

Em maio, parte do grupo se reuniu para discutir as estratégias das pré-candidaturas. Um dos coordenadores do encontro, o general Girão, informou que o grupo é apartidário e não se trata de nenhum movimento, apenas uma união de esforços para identificar e apoiar os candidatos das Forças Armadas em todo o país.

“Teremos candidatos em todos os estados brasileiros, e esse número não para de crescer. É natural, pois se as Forças Auxiliares podem ter candidatos, porque os militares do Exército, Marinha e Aeronáutica não podem?”, questionou o general.

 

Propostas

Um dos incentivadores da participação da categoria nas eleições, o deputado Major Olímpio, presidente do PSL-SP, acredita que desta vez a bancada de militares no Congresso Nacional vai ser muito grande, isso de acordo com o número de interessados pelos cargos de deputados federais e senadores.

Deputado Major Olímpio é um dos maiores incentivadores dos pré-candidatos militares

O parlamentar considera que as propostas do grupo, principalmente as voltadas para a área de segurança serão os diferenciais na hora do eleitor escolher seus candidatos. “Nossa bandeira principal é a segurança pública, que está um caos. Desta vez vamos realizar a intervenção militar pelo voto”, destacou.

Entre as propostas para a área de segurança do grupo estão:

– Fortalecimento da Constituição para inibir os criminosos;

– Porte de arma responsável;

– Reestruturação da Segurança Pública no país como um todo;

– Verba para a Segurança Pública;

– Reivindicar os R$ 21 bilhões que são necessários para os serviços carcerários;

– Diminuição das instâncias recursais.

 

Apoio a Bolsonaro

Pré-candidato ao GDF, o general Paulo Chagas apoia a candidatura de Jair Bolsonaro

Apesar do grupo ser composto por militares, o apoio ao pré-candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, não é unânime. O general Augusto Heleno, por exemplo, chegou a dizer no encontro dos militares que Bolsonaro não era o candidato dos sonhos dele, mas que no momento, indiscutivelmente, é o melhor e único capaz de mudar a atual situação brasileira.

Já o general Paulo Chagas manifestou seu apoio incondicional à candidatura Bolsonaro e engrossou o coro em defesa da legitimidade das pré-candidaturas militares. “Querem desmoralizar os militares, falando em golpe. O propósito é claro: demonizar as Forças Armadas. Mas a população hoje está bem mais esclarecida e não engole qualquer coisa”, afirmou.

 

 

Dificuldades

De acordo com o cientista política Paulo Kramer, a vitória dos militares nas urnas não será nada fácil, pois a ligação da categoria com o golpe militar ainda é muito forte. “Não tem como a gente falar de candidato militar e não citar o Bolsonaro. Os eleitores que se identificam com ele, são aqueles que aprovaram a ditadura militar. Embora ele tenha uma grande plateia, o golpe manchou a imagem dos militares. E para muitos, principalmente aqueles que não aprovaram, é reviver um passado que não querem mais”, ressaltou Kramer.

Mas para o especialista, apesar de ainda haver rejeição, Bolsonaro e os demais candidatos militares têm boas chances. “Afinal, ele [Bolsonaro] não chegou à Câmara dos Deputados apenas com votos de militares. E mesmo que o interesse na intervenção militar o prejudique, ele está muito bem nas intenções de voto”, disse.

Paulo Kramer ainda elencou os principais motivos que levam os eleitores a optarem pelo Bolsonaro nas urnas:

Muitos eleitores do Bolsonaro são jovens, que não viveram a ditadura e acham que na época tudo era melhor. De acordo com o cientista político, isso é uma ilusão de ótica.

A taxa de insegurança no país.  Antes de ser candidato, o Bolsonaro já havia um discurso duro com o crime. Ele acha que os Direitos Humanos exageram. Ele assume posturas radicais diante da criminalidade, o que agrada parcela da população.

Indignação ética. O Brasil nunca foi tão exposto a corrupção como agora. Hoje estão sendo descobertos políticos corruptos, burocratas da Petrobras corruptos, empreiteiros corruptos. E o discurso dos militares é a renovação. Novos políticos conduzindo o país.

 

Antes x Hoje

O historiador Rafael Fernandes lembra que é o art.142 da Constituição que rege as Forças Armadas. Ele destaca que o inciso V diz que o militar na ativa não pode estar filiado a partidos políticos, logo não pode participar de eleições. “Militares na reserva podem participar, mas ir para reserva é como se chama o militar aposentado e ele não representa instituição. Ou seja, efetivamente não existe uma ‘intervenção militar’ por meio da eleição”, explica.

De acordo com Rafael, antigamente nos golpes aplicados pelos militares, não haviam o clamor popular. “Alguns setores da sociedade, os mais privilegiados apoiavam, mas não a grande massa”, destacou. Hoje, segundo Rafael, o que se vê nas redes sociais são pessoas de diferentes classes, inclusive as mais humildes, bradando por uma “intervenção militar” por crer que vai melhorar o país, mas sem se dar conta do que isso representa.

“Um ex-militar que eventualmente ganhe uma eleição, se agir democraticamente, não vai governar como se liderasse um quartel. Deverá lidar com a oposição e opiniões contrárias. Comandar um quartel é muito distinto de governar. São funções que não se misturam”, ressaltou.

 

Militares na política

Os militares já têm bastante história na política do Brasil, principalmente no período do golpe militar, que se iniciou em 1964. Mas de acordo com o historiador Rafael Fernandes, o interesse da categoria pela política começou bem antes.

“No caso do Brasil, os militares passaram a atuar na política após a Guerra do Paraguai (1864-1870) quando o Exército foi de fato estruturado. Em 1889 foram os militares que proclamaram a República e afastaram Dom Pedro II. Em 1930 os militares puseram Vargas no poder e em 45 tiraram o mesmo Vargas. Quando o exército participa intervindo é sempre um momento de ruptura institucional”, ressaltou.

 

 

18 de junho de 2018


2 Comentário

  1. Sra. Caroline Cintra, boa tarde.
    Sou Maj Fábio Huss, do Exército, um dos coordenadores do Movimento de Militar das Força Armadas Pré-Candidatos nas eleições de 2018. Com a finalidade de informar melhor e corrigir vossa matéria, esse suposto número de 600 pré-candidatos militares não é real, pois nós, militares das Forças Armadas, estamos trabalhando independentemente dos pré-candidatos militares de outras forças auxiliares estaduais. Nosso número atual de pré-candidatos militares das Forças Armadas está hoje em 93 (Ativa/Reserva) do Brasil todo (exceção ao Acre), de vários partidos partidos (maioria do PSL). Sendo assim, essa vinculação e associação de pré-candidaturas de militares do Exército, Marinha e Aeronáutica aos pré-candidatos da PM, BM, GM e etc não procede.
    Atenciosamente,
    Maj Fábio Huss (Ativa/Exército) – Pré-candidato a Dep. Estadual pela PSL/AM.

  2. Repor, de forma democrática, os militares no poder seria bela experiência. Se não der certo, próximas eleições a gente muda. Bolsonaro precisa de parceiros nos Governos dos Estados e ressonância no Legislativo. Vamos ver se o Brasil melhora na Educação, na Saúde, na Segurança. Conceder até 2 mandatos. Penso que é boa opção votar em militar. Retirar do poder esta safra de politicos que tanto envergonha.

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