História do Lago Paranoá guarda segredos submersos

Por Eduardo Monteiro

Vista panorâmica do Lago Paranoá - Foto: Trip Advisor

Naquela manhã de sábado, 12 de setembro de 1959, o aniversariante Juscelino Kubitscheck, ao lado da esposa Sarah, manobrando um trator, e observado por uma multidão de candangos fez descer as comportas da barragem do Lago Paranoá, nascia, assim, um dos principais cartões postais da cidade, que com suas águas abraça e encanta Brasília.

JK completava 57 anos, no mesmo dia em que “renascia” o Lago Paranoá, uma vez que, segundo relato do botânico e engenheiro francês Auguste Glaziou, integrante da 2ª Missão Cruls, liderada pelo astrônomo belga Luís Cruls e realizada no período de julho de 1894 a dezembro de 1895, no mesmo leito teria existido um outro lago no passado.

 

Barragem do Lago Paranoá 1959/1960 – Foto: Arquivo Público do DF

 

“Entre os dois chapadões, conhecidos na localidade pelos nomes de Gama e Paranoá, existe imensa planície em parte sujeita a ser coberta pelas águas da estação chuvosa; outrora era um lago devido à junção de diferentes cursos de água formando o rio Parnauá…” Em seu relatório Glaziou conclui, que com o fechamento dessa brecha forçosamente a água tornará ao seu lugar primitivo e formará um lago artificial inteiramente navegável.

Palácio da Alvorada e Lago Paranoá- 1959 – Foto: Arquivo Público do DF

 

Esses estudos foram realizados durante o período de atuação da Comissão Exploradora do Planalto Central (1892 a 1896), cumprindo determinação da Constituição Republicana de 1891 que previa a mudança da capital federal para o Planalto Central, com a destinação de uma área de 14.400 Km², incorporando áreas das antigas fazendas e vilarejos do estado do Goiás.

Crédito:Luiz B. Neto/ArPDF. Integrantes da comissão da Missão Cruls.

Em 1948, 55 anos depois, a Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil, presidida pelo General Poli Coelho referendou os estudos da Comissão Cruls, mas foi somente na Comissão de Localização da Nova Capital, presidida pelo Marechal José Pessoa, em 1955, que os urbanistas Raul Pena Firme, Roberto Lacombe José de Oliveira Reis, incluíram a criação de um lago ornamental.

Juscelino Kubitschek é eleito presidente do Brasil em outubro de 1955. No seu plano de metas, a construção da nova capital Brasília era meta-síntese. A escolha do Sítio Castanho- local onde se localiza o DF- em abril de 1955, já contemplava a proposta do Lago Paranoá. Em 15 de março de1957, o júri escolheu o projeto de número 22 de autoria do arquiteto e urbanista Lúcio Costa. Brasília e o lago, finalmente iriam sair do papel.

 

JK em frente ao Palácio da Alvorada – Foto: Arquivo Público do DF

 

Sangue, suor e lágrimas

Fácil não foi. Diria Juscelino em seu livro Por que construí Brasília. Os problemas na construção da barragem do Paranoá foram “os de solução mais difícil”. JK precisou intervir, pois a empresa contratada para a obra da barragem e da usina do Rio Paranoá, a norte-americana Raymond Concrete Pile, não concluiu o serviço e teve que ser substituída por um pool de seis empresas brasileiras.

Construção da Barragem do Paranoá. Dezembro/1958 – Foto: Mário Fontenele

Enquanto para os operários das obras do Plano Piloto, a rotina era por demais exaustiva, para os candangos que trabalhavam na barragem, ela exigia esforço físico supremo, principalmente para os que tinham de quebrar as pedras usadas na compactação da muralha que interceptou as águas do rio Paranoá e de seus afluentes. Um trabalho hercúleo em nome do sonho da Nova Capital. Mas Brasília não poderia ser inaugurada com um lago vazio, ele era a “moldura líquida da cidade”, disse JK.

Construção da Barragem do Paranoá. Dezembro/1959 – Foto: Mário Fontenele

Pelo menos meia dúzia de pedreiras foram exploradas nos arredores do lago para a retirada de cascalho, brita e areia necessárias à construção da barragem. Algumas eram particulares, outras pertenciam às construtoras.

 

A “Atlântida” brasiliense

 

Vila Amaury- 1958/1959 – Foto: Arquivo Público do DF

 

O Lago Paranoá guarda segredos e tesouros. Olhando o espelho d’água de 38 quilômetros quadrados não se pode imaginar o que tem no fundo. Muito desse mistério tem origem em uma vila improvisada, construída por os operários que trabalhavam na obra do Congresso Nacional e dos Ministérios.

Inicialmente conhecida por “Sacolândia”, depois por “Vila Bananal” (nome da fazenda que deu origem à maior parte do DF) e, finalmente por Vila Amaury (nome de um funcionário da Novacap e um dos líderes da epopeia), a vila chegou a abrigar 16 mil pessoas, que conheciam o destino do local: a submersão, quando o lago chegasse.

Vila Amaury- 1958/1959 – Foto: Arquivo Público do DF

Apesar de provisório o lugarejo tinha ruas, bares, comércio e até um pequeno parque de diversões, que alegrava os domingos empoeirados daqueles bravos moradores. Durante oito meses as águas avançavam mansas, lentamente, por sobre a terra seca e avermelhada do cerrado. Até que a água atingiu o joelho das pessoas e foi preciso uma grande operação da Novacap para retirar todo mundo às pressas. Por isso, muitas casas e pertences permanecem intactos até hoje no fundo do lago

Mergulhador Facó vasculha interior de uma Kombi. Foto: Beto Barata

As primeiras famílias transferidas da Vila Amaury e de invasões próximas a Vila Planalto foram assentadas em Sobradinho. Outras famílias foram encaminhadas para a cidade do Gama e Taguatinga.

 A “Atlântida” brasiliense existiu onde atualmente fica o Grupamento dos Fuzileiros Navais e o Iate Clube. Por conta dessa magia, o local é explorado por mergulhadores interessados em desvendar os segredos dos primórdios da capital.

 

Curiosidades

Paranoá que é um vocábulo de origem tupi. Significa “enseada de mar”, através da junção dos termos paranã “mar” e kûá “enseada”, foi em sua origem um rio piscoso e pedregoso, que dividia os municípios de Planaltina e Luziânia e era bordeado em vários pontos por uma mata alta e densa.

Cachoeira no Rio Paranoá – Foto: Arquivo Público do DF

Na barragem foram utilizados 684 mil metros cúbicos de pedra e a mão de obra entre 1,2 mil e 3 mil operários (não há registros históricos definitivos). Com o represamento do Rio Paranoá, originou-se a usina que supria o Distrito Federal, mas que, atualmente, representa apenas 2,5 por cento de seu consumo energético.

Quando o Lago Paranoá atingiu a cota 1000 (mil metros acima do nível do mar), suas águas se estendiam por 37,5km².

Barragem do Paranoá 1959/1960 Foto: Arquivo DEPHA/SC/GDF

 

Datas

18 de outubro de 1956 — Israel Pinheiro informa à imprensa que as obras de represamento do Lago Paranoá já começaram.

Julho de 1957 — Concluído o anteprojeto da usina hidrelétrica.

Dezembro de 1958 — Início das obras da ensecadeira do desvio, com previsão de que, no começo de 1959, se completaria o canal do desvio. Em seguida, ficariam prontas a ensecadeira do desvio, a escavação do vertedouro e a impermeabilização.

Janeiro de 1959 — Conclusão da ensecaderia do desvio e conclusão do vertedouro.

28 de fevereiro de 1959 — O canal para o desvio, a ensecadeira do desvio, a escavação do vertedouro e a segunda fase da impermeabilização foram concluídos.

25 de abril de 1959 — A Novacap anuncia que, por determinação do ministro da Marinha, almirante Mattoso Maia, o Arsenal da Marinha no Rio de Janeiro iria construir as comportas da barragem do Rio Paranoá.

2 de maio de 1959 — Em avião especial, chega a Brasília 1,5 mil exemplares de peixes selecionados pela Divisão de Caça e Pesca do Ministério da Agricultura e que servirão de reprodutores no Paranoá.

12 de setembro de 1959 — Fecha-se a barragem do Paranoá. Juscelino e Sarah fazem descer a comporta de ferro da barragem, manobrando um trator, sob o testemunho de uma multidão. O lago começa, então, a se formar.

19 de novembro de 1959 — A Usina do Paranoá, contratada com a Siemens, aproveitará o desnível da Cachoeira do Paranoá e a barragem do Lago. Os trabalhos da barragem já estão concluídos na parte essencial, ficando a Siemens com os serviços de instalação da usina.

O Lago Paranoá é um patrimônio natural da capital Patrimônio da Humanidade. Espelho do céu exuberante de Brasília e orgulho da sua população. Uma saudação especial a Glaziou, Juscelino, Lúcio, Oscar, Sayão, Israel, Ernesto e tantos outros.

 

A Lenda Indígena do Lago Paranoá

Há muito, muito tempo, antes da chegada dos primeiros bandeirantes ao Planalto Central, existia uma tribo indígena: os Goiases. De acordo com a lenda, nessa tribo crescia um belo índio chamado Paranoá. Seu pai havia morrido por picada de cobra cascavel e sua mãe foi embora para outras terras na companhia de um jovem guerreiro. A criança ficou, assim, entregue aos cuidados do cacique. Os dois se davam muito bem, mas a cada dia preocupavam-se porque a tribo diminuía.
Ilustração – Foto: Curto e curtos – Divulgação

 

Certo dia, Tupã apareceu a Paranoá em sonhos. Disse que Paranoá deveria ficar vivendo no Cerrado, mesmo quando todo seu povo tivesse partido. Disse ainda que mandaria uma linda mulher a quem Paranoá deveria amar: com ela teria filhos e povoaria toda aquela terra.

Obediente, Paranoá ficou sozinho aguardando sua prometida. Enquanto esperava, Paranoá andava pelas matas e foi durante essas caminhadas solitárias que Jaci, a lua, de tanto admirar, se apaixonou por ele.Um dia, Paranoá ouviu sons diferentes na floresta e foi verificar. Avistou uma mulher, observou que ela era muito linda e perguntou:
-É você a minha prometida?
A mulher estendeu os braços e afirmou:
– Sim. Sou Brasília.

 

Ilustração – Foto: Divulgação

Paranoá, fiel a seu sonho começou a andar em direção a Brasília. Finalmente não estaria mais sozinho. De repente, no entanto, percebeu que seu coração já tinha dona: era de Jaci, a lua. O amor dela tinha sido constante durante todos aqueles anos. Tupã, percebeu o que estava acontecendo e, decepcionado com Paranoá, resolveu transformá-lo num lago, cujos braços estendidos tentam alcançar Brasília. Esta, foi transformada numa cidade.

Os moradores da cidade contam que, um dia, se Jaci conseguir elevar Paranoá até o céu para viver com ela, Brasília desaparecerá tão rápido quanto surgiu.”

Fontes de Pesquisa:

FONSECA, Fernando Oliveira. Org. Olhares sobre o Lago Paranoá. Brasília: Secretaria de Meio Ambiente e recursos Hídricos, 2001.

CRULS, Luiz. Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central: relatório Cruls. Brasília: CODEPLAN, 1992.

Relatório Técnico sobre a Nova Capital da República: relatório Belcher. 3 ed. Brasília: CODEPLAN, 1984.

COSTA, Lúcio. Relatório do Plano Piloto de Brasília: Brasília Cidade que Inventei. ArPDF, CODEPLAN, DePHA. Brasília: GDF, 1991.

KUBITSCHEK, Juscelino. Por que construí Brasília. Brasília:Senado Federal, 2009

Instituto Histórico e Geográfico do DF – IHG

Correio Braziliense

Jornal de Brasília

 

27 de setembro de 2017