Longe do poder, mas perto da água

Alexandre Yanez garante que a população da região norte do DF é esclarecida em relação ao consumo de água

Por Isabela de Oliveira – Brazlândia, Fercal, Planaltina, São Sebastião, Sobradinho  e Sobradinho II são regiões que a seca não alcança e, pelo menos por enquanto, não assusta. Essas seis cidades não são abastecidas pelo sistema tradicional das bacias do Descoberto, Santa Maria/Torto e, por isso, não foram incluídas no programa de racionamento. Mas, mesmo sem amargar com a obrigatoriedade da economia, os moradores das satélites privilegiadas reduziram, em relação ao mesmo período do ano passado, até 11%  o consumo de água no primeiro trimestre de 2017, estima a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb).

Luciene adaptou sua rotina à crise hídrica

Em relação aos três primeiros meses de 2016, São Sebastião — que está a 20 km do Congresso Nacional — reduziu o consumo de água em 4,4% em janeiro; 10% em fevereiro; e 11% em março. Moradora da região, Luciene Cordeiro de Souza, 37 anos, lista algumas adaptações na rotina, como diminuição na frequência da irrigação do jardim e também da lavagem da calçada. “Minha irmã mora no Itapoã e precisou vir várias vezes à minha residência buscar água. Eu, com medo disso acontecer, passei a economizar. Se falta água em minha casa, é  pela manhã ou pela tarde. Coisa rápida”, conta a assessora parlamentar.

Comparado a 2016, Sobradinho — a 25 km do Congresso Nacional — economizou, respectivamente,  3,2%, 7,9% e 9,6% em janeiro, fevereiro e março de 2017. Sobradinho II — a 30 km do Congresso Nacional —, poupou  3,4%, 8,3% e 10,9% no mesmo período. Os números orgulham os bairristas da porção norte. “Aqui, somos esclarecidos: uma das nossas principais preocupações é meio ambiente”, garante, com uma observação, o ex-administrador regional de Soradinho e da Fercal, Alexandre Yanez, morador da região. “A Fercal só não tem racionamento formal, mas lá sempre falta água. Ela é bombeada de Sobradinho e se perde ao se misturar com os poços artesianos, prejudicando a vazão”.

Desvios

Iara é professora e acredita na educação como forma de ajudar na conservação do meio ambiente

Somados a ocupação irregular do solo — que gera um rombo de R$ 34 milhões na receita da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) —, os poços artesianos ilegais são agravantes da crise hídrica no DF. Em Planaltina — a 47 km do Congresso Nacional — o problema é combatido com vigilância constante. “Muitos dos moradores são ligados ao Colégio Agrícola, Embrapa ou Emater, então, temos muitos agentes fiscalizadores dentro da comunidade”, diz a professora Iara Rodrigues da Silva, 40 anos, moradora do Vale do Amanhecer.

A resolução da crise hídrica não se resume ao fator economia, acredita Iara. “Não é só poupar um pouco de água em casa e pronto. Pensar em água é pensar na conservação do meio ambiente como um todo, é buscar novas formas de obter energia e educar as crianças”. Comparado ao mesmo período de 2016, Planaltina poupou 3%, 7% e 8,5% de  água no primeiro trimestre de 2017. A economia de Brazlândia — a 50 km do Congresso Nacional — foi de 9% em janeiro, 9,4% em fevereiro e 7,6% em março.

Risco de seca

Por enquanto, avalia a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa), a situação dos sistemas isolados — compostos  pelos córregos Pipiripau, Mestre D’armas, Quinze, Corguinho, Brejinho, Paranoazinho e Fumal, e responsáveis pelo abastecimento de 10% da população do DF — é boa. “Mas fica difícil estimar como vão ser as vazões no auge da seca, lá para o final de agosto até final de setembro”, explica Welber Ferreira Alves, coordenador de Informações Hidrológicas da Adasa.  “Se as chuvas atrasarem, o nível dos rios pode reduzir bastante, e aí podemos chegar a uma situação de racionamento”.

É difícil prever o comportamento dos sistemas isolados na seca porque, ao contrário da Bacia do Descoberto e Santa Maria/Torto, eles não têm reservatórios. São, portanto, dependentes da defluência dos rios e da conservação do ecossistema como um todo.  “A questão da poupança, da economia, ajuda o sistema porque mantém a água nele. Quando chegarmos à seca, a economia deve ser mantida para que haja água para todos, pois não podemos dar certeza absoluta que ela não corre risco de faltar”, adverte Welber.

8 de agosto de 2017