A história dos baús de Brasília

Por Eduardo Monteiro

Eduardo Monteiro

 

Brasília, uma cidade de vias retas, largas e insinuantes à velocidade e ao trânsito intenso, não tem exatamente uma vocação clara para o desenvolvimento imediato do transporte coletivo. No entanto, os ônibus- os famosos baús- sempre fizeram parte da paisagem brasiliense.

A Lendária Jardineira. Brasília 1960.

ISSO É SÓ O COMEÇO…

Uma história que começou há exatos 56 anos, com a fundação da TCB (Sociedade de Transportes Coletivos de Brasília), no dia 8 de maio de 1961. Primeira empresa de transporte criada em Brasília, teve suas operações iniciadas em 1º de junho do mesmo ano. Embora, desde 1957 já houvesse outras empresas de outras estados operando por aqui.

A primeira linha a circular entre Goiânia e Brasília ocorreu em janeiro de 1957, pela Viação Araguarina.  O trajeto por ônibus em linha regular até o Distrito Federal era feito pela estrada Anápolis-Goiânia numa viagem de 12 horas.

“Jardineiras” da Viação Araguarina, a primeira empresa a operar a linha Brasília-Anápolis-Goiânia. Cidade Livre 1957. (Arquivo Novacap)

 

Ônibus da Expresso Brasil (famosa Jardineira) realizando o transporte entre a Cidade Livre (atual Núcleo Bandeirante) e o canteiro de obras de construção de Brasília. As placas indicam a localização das obras. (Arquivo Novacap)

Uma vista da Plataforma da Rodoviária em 4 de abril de 1963. A Plataforma foi uma das obras mais dispendiosas da capital. Notar que ainda não havia comércio no nível superior e que uma pista passava sob o mezanino. (Arquivo Novacap)

Parte da frota da TCB em 1966 (Arquivo Público do DF)

 

Ônibus da TCB, ao fundo a Catedral e a Esplanada dos Ministérios em 1966 (Arquivo Público do DF)

 

Cabine de ônibus Mercedes Benz 1960

Plataforma inferior da Rodoviária – 1967

 

UM PASSEIO PELA AVENIDA PRINCIPAL

Imaginem um tempo de pompa e circunstância. Sim! Assim era a W3 Sul em seu tempo. A principal avenida comercial da cidade viveu a sua efervescência nas décadas de 1960 e 1970, bem antes da chegada dos shoppings. Palco de intensa movimentação. Cenário comercial por excelência. A moda e o charme desfilavam, indo e voltando…

W3 Sul, início da década de 1960 ( Arquivo Público do DF)

 

W3 Sul, início da década de 1970 ( Arquivo Público do DF)

 

———    Avenida w3 sul – dezembro de 1967 ( Arquivo Público do DF)

 

Ônibus da TCB na W3 Sul, linha 13, Núcleo Bandeirante – Rodoviária, via W3 Sul. 28 de dezembro de 1967.  (Arquivo Novacap)

 

O PAPA-FILAS 

 

Rodoviária do Plano Piloto em 8 de outubro de 1967, com linhas de “Papa-filas” para Taguatinga (via Núcleo Bandeirante) e Gama (via Eixo). Arquivo Novacap.

 

O nome é por causa da sua capacidade em reduzir o tamanho da fila de passageiros nos pontos, principalmente no horário da manhã e final de tarde. Era necessário oferecer ônibus de grande porte, mas de maneira rápida. Não havia tempo para grandes estudos.

Inventado nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial para levar trabalhadores às fábricas, o Papa-Filas chegou ao Brasil em 1957. Era uma enorme carroceria de ônibus sobre uma carreta tracionada por um cavalo de caminhão.

A capacidade máxima de alguns modelos chegava a 120 passageiros, com até 70 pessoas sentadas, um número enorme para os ônibus da época, que tinham capacidade entre 36 a 40 passageiros.

Inicialmente implantado em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e outras cidades, também receberam o serviço, que não funcionou como esperado e foi desativado em seguida.

Fonte principal: http://onibusantigosemportoalegre.zip.net/

“Embarque do Papa-filas” (08-12-67)

 

Interior do “Papa-filas”. Passageiros rumo ao Gama (08-12-67)

 

E O PAPA-FILAS VOLTOU EM 1970, ANTES DE SUMIR DE VEZ…

Papa-Filas na plataforma da Rodoviária 1970.

 

“Nos anos de 1950 existiam muitos deles circulando nas grandes cidades, no transporte urbano de passageiros. Naquela época, eram puxados pelos cavalos-mecânicos da FNM. Após sair de circulação, foram vendidos para circos, que os transformaram em trailers”. (Antônio S. Hurtado)

Reflexo do crescimento das cidades. Este foi o Papa Fila, precursor do ônibus articulado, que foi a resposta rápida ao crescimento da demanda de passageiros nos centros urbanos. Um cavalo de caminhão nos anos de 1950 tracionava uma enorme carroceria de ônibus. (Adamo Bazani. Foto: br.printerest.com)

 

CURIOSIDADES

Foto ilustrativa de Papa-Fila (divulgação – truckmotorsshhow)

Os Papa-Filas eram tão importantes no transporte urbano, que em 14 de março de 1956 um desfile desse tipo de veículo inaugurou a Marginal do Tietê, no trecho asfaltado entre o Bairro do Limão e Ponte Grande, na Zona Leste. Antes, eles saíram do Vale do Anhangabaú num cortejo por diversas ruas do Centro da cidade. (Luís Alberto Caju – truckmotorsshow.blogspot.com.br)

Interior do Papa-Fila

 

Vista frontal Papa-Filas

 

OS SUCESSORES DO PAPA-FILAS

Ônibus articulado da TCB, início da década de 1980

 

Ônibus articulado da Pioneira final da década de 1980

 

Foto BRT – Ano 2014. Viação Pioneira – Divulgação

Os ônibus articulados, que teve a primeira unidade construída em 1978, e os posteriores bi-articulados em circulação nas grandes capitais brasileiras, foram inspirados nos Papa-Filas da década de 1950.

OUTRAS IMAGENS DESSE COTIDIANO

Fila para compra do Passe Estudantil. Estação Rodoviária (agosto de 1969 – Arquivo Público do DF)

 

Embarque na Rodoviária do Plano Piloto. Ao fundo O SDS (Conic), ainda em construção. (janeiro de 1969 – Arquivo Público do DF)

 

Viação Pioneira na Plataforma da Rodoviária (16-04-1968. Arquivo Público do DF)

 

Viplan na W3 Sul, linha Cruzeiro-Rodoviária (05-01-1971. Arquivo Público do DF)

 

Um Táxi DKV na plataforma da Rodoviária do Plano Piloto em 1969, que dividiam espaço com os ônibus

 

TCB EM TRÊS TEMPOS

 TCB -Década de 1960  

 

 TCB -Década de 1970

 

 TCB -Década de 1980

 

MICRO-ÔNIBUS 

Micro-Ônibus da Viplan – 1972

 

Tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador

 João Costa Feitosa (58), servidor da TCB desligado da empresa na última quinta-feira, dia 3, após 38 anos de serviço, dos quais 23 como cobrador de ônibus, relata em voz mansa: “As pessoas dirigiam mais felizes, tinha mais cortesia no trânsito, quando era mais ônibus e menos carros”.

A rotina do seu João fez dele um observador privilegiado. Afinal, o cotidiano de uma linha de ônibus possibilita experiências variadas. “Certa vez, lá por 1986, fazia a linha W3 Sul –Rodoviária, e no meio do caminho subiu um senhor quase careca, magro, elegante, e foi logo dizendo que tinha carro e motorista, mas que queria ver como estavam os ônibus em Brasília”.

O atento cobrador ficou observando, mas antes que tivesse tempo de perguntar, aquele senhor alto e simpático matou a sua curiosidade: “ Eu sou o Lúcio Costa, o arquiteto que desenhou esta cidade”. Disse, em meio a um leve sorriso. Sentou-se próximo ao cobrador e seguiu viagem.

São dezenas de histórias que vão das curiosas às hilárias, passando pelas intrigantes: “Outra vez uma senhora entrou no ônibus com um carrinho e o seu bebê. Sentou-se no fundo do coletivo. Deu sinal, desceu e esqueceu o carrinho com o bebê. Daqui a pouco foi a gritaria e ela correndo atrás do ônibus como uma louca”. Narra seu João, impassível.

Contou que tinha uma senhora, que quase todo dia pegava o ônibus no Setor Comercial Sul no mesmo horário. Ela entrava, pagava a passagem, se sentava, abria a bolsa, apanhava sua marmita e comia tranquilamente, enquanto o ônibus seguia seu trajeto. Depois tirava um cochilo, e quando chegava no seu ponto de novo, ele a acordava, ela agradecia e ia embora.

Quando pergunto a ele o que mais lhe deu satisfação nesses anos todos, além das amizades. E é enfático: “Graças a Deus meu carro nunca foi assaltado. Era o da frente ou de detrás, mas o meu nunca. Outra coisa: sempre consegui trabalhar de dia. Assim, sempre passei Natal e Ano Novo com a família. Ah! Também consegui o lote e construir minha casa em Samambaia, graças a essa empresa.

Uma linha de ônibus é quase uma espécie de comunidade. As pessoas se veem praticamente todos os dias, se falam e criam laços de amizade. “Quantas vezes eu deixei pessoas passarem sem pagar, com a promessa de pagar no outro dia ou depois. E voltavam e pagavam numa boa. A gente aprende a conhecer no olhar quem está falando a verdade ou não”.

 

CARTÕES POSTAIS DA CIDADE

 

Reproduções de Cartões Postais da década de 1960. Em primeiro plano, ônibus da Viação Pioneira. Ao fundo ônibus da TCB. (Foto:arquivo Novacap). Plataforma da Rodoviária – década de 1960

 

 

RETRATO ATUAL

 

TCB

A Sociedade de Transportes Coletivos de Brasília – TCB viveu seu apogeu na década de 1970, considerada modelo nacional, sendo pioneira na implantação de transmissão automática em ônibus. hoje tem 47 ônibus cadastrados no Transporte Urbano do Distrito Federal – DFTRANS e 180 funcionários, operando as linhas 108, 108.3, 108.5, 108.6, 108.7, 108.8 e 131.3 além da prestação de serviço de aluguel de ônibus. A TCB ainda opera a linha executiva 113 Aeroporto (Setor Hoteleiro Norte e Sul).

 

Ônibus

No Distrito Federal o transporte público coletivo emprega hoje 10 mil profissionais e atende cerca de 1 milhão de pessoas que utilizam os ônibus e os micro-ônibus para se locomoverem, de acordo com a Secretaria de Transportes do DF. A frota de quase 3 mil carros oficiais e aproximadamente mil excedentes, atuam em 967, que percorrem diariamente toda a região do Distrito Federal.

Metrô 

Com a chegada do Metrô a partir de janeiro de 1997, inicialmente em operações experimentais, e a partir de 2001 de forma definitiva, os “Baús” perderam a sua condição de protagonistas do transporte de passageiros. Atualmente, o Metrô-DF atende até 160 mil usuários/dia. Os tempos mudaram. O futuro exige a integração e a busca de novas soluções para a melhoria do transporte público no DF.

Agradecimentos:

João Costa Feitosa

Gerlane Alves e

Assessoria de Comunicação Social da TCB.

17 de Maio de 2017