Orelhões, espécie em extinção na selva das telecomunicações

Por Isabela de Oliveira — No Distrito Federal, cerca de 10% dos 11,6 mil telefones de uso público (TUP) já foram vandalizados, estima a telefônica Oi, concessionária responsável por administrar os orelhões na Capital Federal. Enquanto a depredação era a única ameaça, os orelhões não eram considerados uma espécie ameaçada. Mas, como na Saga Star Wars, em que o filho Luke Skywalker combate o próprio pai,  os celulares disputam o espaço de seus antecessores. Eis, então, a morte anunciada: segundo a Oi, desde 2002, houve redução de 44% nos TUP — de 1,4 milhão, foram para 785.613. Entre aquele ano e 2013, houve variação negativa de 95% na receita de ligações. Por outro lado, a planta de celulares aumentou 124% no mesmo período. Existem 243,43 milhões de linhas móveis registradas no Brasil. No DF, 90,7% das pessoas com mais de 10 anos têm celular.

O empresário Márcio Guimarães pensa o mesmo. Proprietário de uma empresa que fabricava orelhões, ele diz que, até 1998, produzia e distribuía, para todo país, três mil peças por mês. “Com o processo de privatização, as empresas de telecomunicação perceberam que era melhor investir em telefonia móvel, cuja infraestrutura tem um custo menor do que a dos telefones de rede”, explica Guimarães.

Isso porque, na telefonia móvel, quem faz o investimento é o usuário. “Ele pode comprar um telefone de R$ 5 mil, se quiser. O desaparecimento dos orelhões é, mesmo, devido ao celular: as pessoas preferem pagar um real o minuto a usar o telefone e pagar nove centavos”, opina Guimarães.

Jaissa Brenda Cavalcante Alves, estudante de 13 anos, diz que não é o celular por si que enfraquece os orelhões, mas a possibilidade de enviar mensagens de texto por eles. “Eu praticamente não ligo para ninguém. Se preciso falar, mando mensagens. Com os meus amigos é a mesma coisa”, diz a adolescente que nunca sequer tocou em um orelhão.

Segundo a Oi, com a queda no consumo via TUP, hoje, apenas 0,04% da planta desses telefones gera receita suficiente para o pagamento do seu próprio custo de manutenção. Devido a sua pouca atratividade, cerca de 68,2% dos orelhões da concessionária não geram chamadas tarifadas e cerca de 29,9% não são sequer utilizados. O problema não é exclusivamente brasileiro. Diante da mesma situação, Nova York trocou orelhões por pontos de wi-fi.

Revolução ultrapassada

Até 1972, falar ao telefone na rua só era possível se um telefonista, em uma central telefônica em algum ponto da cidade, fizesse a ligação; ou, se um estabelecimento comercial qualquer, houvesse um telefone semipúblico. Públicos, como conhecemos, só chegaram às calçadas do Rio de Janeiro e São Paulo em janeiro daquele ano. “A verdade é que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que não precisam mais fazer fila no boteco ou na farmácia pra dar um recado telefônico”, registrou, sobre a inauguração dos orelhões, Carlos Drummond de Andrade na crônica Amenidades da Rua.

Em Brasília, a nova realidade demorou um pouco mais para chegar, relembra Maria Aparecida Gomes Honesko, dona de casa de 57 anos. Antes dos orelhões alcançarem Sobradinho, mas quando já existiam em outros pontos do país,  havia uma central telefônica com uma espécie de telefonista que vendia fichas, ou minutos, para quem quisesse telefonar. “Formava uma fila enorme de pessoas, pois era a única central da comunidade”.

A primeira vez que Maria Aparecida ouviu falar de orelhões foi pela televisão. “Assistíamos muito o programa do Silvio Santos e, por lá, ficávamos sabendo quais cidades seriam contempladas com os telefones públicos”. Noutras vezes a notícia vinha pelo correio. Normalmente, os telefones ficavam próximos de comércios onde era possível comprar fichas para fazer as ligações.

Quando chegaram às quadras residenciais, os TUP passaram a integrar a rotina da vizinhança quase que instantaneamente. Como disse Drummond em sua crônica: “a população tomou conta das cabinas, que não são cabinas, são uma cuia gozada, a céu aberto, uma cuia que fala. Simpatizou com elas. Aprovou-as”. O morador mais próximo do equipamento acabava virando, se querer, o secretário responsável por anotar recados e, até certo ponto, agendar ligações.

“Essa pessoa pegava o recado e dizia: ‘olha, fulano vai te ligar tal hora’. Então nós íamos para lá esperar a ligação. Muitos não tinham telefone residencial porque ele não estava disponível ainda”, relembra Maria Aparecida, que até hoje tem a linha de telefone comprada. “Antigamente”, ela completa, “nós adquiríamos as ações de empresa telefônica, e não só o serviço de telefone”.

O orelhão estava tão imerso no cotidiano que seus mecanismos influenciaram até o modo de falar. A expressão cair a ficha —  usada quando alguém demora para entender algo —, por exemplo, vem daí: até meados dos anos 1990, os telefones públicos funcionavam com fichas parecidas com moedas. Quando se completava uma ligação, era possível ouvi-la cair no aparelho.

Design brasileiro

Criados em 1971 pela arquiteta e designer sino-brasileira Chu Ming Silveira, os orelhões são inspirados em um ovo. Menor do que as cabines, eles protegem o telefone do exterior e  rebatem ruídos. Até se estabelecer como orelhão, foi chamado de tulipa e também capacete de astronauta. Além do Brasil, o modelo é usado no Peru, Colômbia e Paraguai, Angola, Moçambique e China, entre outros países.  No ano passado, o orelhão de Chu Ming Silveira completou 45 anos de atividade.

31 de julho de 2017