Pesquisa mostra que 12% consideram transporte público um problema

Levantamento da NTU foi feito em 319 municípios brasileiros. Setor fica atrás apenas da violência e segurança, da saúde e do desemprego

Por Marcelo Moura

Foto: Tony Winston/Agência Brasília

Por Marcelo Moura – Pesquisa da Associação Nacional de Transportes Urbanos (NTU) divulgada ontem (31/8) aponta que o transporte público é o quarto maior problema das cidades para 12,4% da população. O levantamento foi realizado em 319 municípios brasileiros e, de acordo com o resultado, o setor fica atrás apenas da violência e segurança, da saúde e do desemprego, de acordo com pesquisa sobre o perfil da mobilidade urbana nas grandes cidades. O trabalho foi divulgado no Seminário Nacional NTU 2017 & Transpúblico, que tem como tema Qualidade no transporte público: uma demanda social. E, conforme os dados, 61,1% das pessoas consideram que o poder público é o responsável pela melhoria do transporte público.

De acordo com a pesquisa, realizada em parceria com a Confederação Nacional do Transporte (CNT), 59% dos entrevistados se deslocam todo dia e 53,3% estão se deslocando para ir ao trabalho, dos quais 45,2% fazem isso de ônibus. O estudo mostra ainda que 38% deixaram de utilizar o ônibus e 35,8% passaram a usar o carro. Entretanto, 62,6% estariam dispostos a voltar a se deslocar de ônibus caso os valores das tarifas fossem mais baixos e houvesse rapidez na viagem e flexibilidade para as opções de volta.

Quando questionados sobre a gratuidade das tarifas, 53,3% disseram não ter acesso à prioridade e entre aqueles que têm, 47,4% consideram a medida boa. Com relação à gratuidade, 50,9% sabem que o custo recai sobre os outros usuários, e 86,9% concordam com o benefício.

De acordo com o presidente da NTU, Otávio Cunha, a pesquisa mostra que as redes de transporte urbano não estão atendendo as necessidades de deslocamento da população e precisam ser melhoradas com investimentos em infraestrutura e com prioridade para o transporte público. “A questão das faixas seletivas, por exemplo, são um investimento barato. Não é só fazer a faixa e requalificar o serviço convencional. É colocar uma faixa para dar velocidade, reduzir os tempos de viagem, fazer pontos de parada mais civilizados e dar confiabilidade na viagem”, disse.

Segundo Otávio Cunha, muitas cidades estão fazendo investimentos em faixas seletivas, mas não ainda de forma que a população perceba as melhorias. “Está claro que pode se ter ganho significativo de aumento de velocidade quando o ônibus trafega livre. E é muito fácil identificar em cada município os principais corredores de escoamento onde há adensamento de veículos e o ônibus disputando espaço com o automóvel”, ponderou.

Para Cunha ao reduzir o custo do serviço, a tarifa também é reduzida, atraindo nova demanda e novamente a tarifa pode ser reduzida, reproduzindo o ciclo.

Deixou de ser prioridade
O secretário municipal de Mobilidade e Transportes de São Paulo, Sérgio Avelleda, avaliou que o transporte público urbano deixou de ser a principal preocupação da população não porque o serviço está adequado, mas porque o desemprego, a preocupação com a saúde e a segurança aumentaram consideravelmente.

“Temos atributos que não estão atendendo os nossos usuários. Estamos perdendo usuários porque não estamos entregando o que eles querem. Se não olharmos para a revolução que a tecnologia pode promover para o setor, corremos o risco de acordar com uma concorrência difícil de ser combatida”.

Menos 3 milhões de usuários diariamente
Na semana passada, a NTU informou que cerca de 3 milhões de passageiros deixam de usar o ônibus como transporte público diariamente no país, ao divulgar os dados anuários referentes a 2016/2017. “É uma queda expressiva e preocupante”, disse o presidente da entidade, Otávio Cunha. A pesquisa foi feita em nove capitais.

Segundo o relatório da associação, nos últimos três anos, o nível da queda de passageiros atingiu 18,1%. Só no ano passado, o número de passageiros transportado diariamente por ônibus caiu 4,6% em relação a 2015. A associação faz o monitoramento dos dados de transportes públicos urbanos desde 1994, totalizando 24 anos de acompanhamento. Para o mês de outubro, a previsão é de queda de 46,3% no número de passageiros transportados.

Para Cunha, fatores como a tarifa, o tempo de viagem, o estado de cada veículo e o trânsito cooperam para a queda do transporte nos ônibus. “Pesquisas apontam que a redução da tarifa e a volta dos investimentos em infraestrutura podem atrair novamente o usuário do ônibus como transporte público. A melhoria da qualidade do transporte, atrairá demanda”, afirmou.

De acordo com o levantamento, o desemprego e a crise econômica são os principais responsáveis pela baixa nos números dos usuários do transporte público. Contudo, Otávio Cunha avaliou que outros fatores contribuem diretamente para o cenário atual. “Temos que levar em conta as distorções do sistema de transporte público urbano, tal como a falta de fontes de financiamento para a tarifa, que hoje é paga, exclusivamente, pelo usuário”, concluiu.

Desde a Constituição de 1988, a atribuição do financiamento do serviço passou a ser dos municípios. Pelo menos 17% dos custos do transporte público estão ligados às gratuidades para idosos, pessoas com deficiência, estudantes e outros motivos, que são financiados pelos usuários que pagam as passagens de ônibus.

Com informações da Agência Brasil

31 de agosto de 2017