Por que engordamos?

Por Dr. Gustavo Francklin

A obesidade tem se tornado uma epidemia mundial. A Organização Mundial de Saúde aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. A projeção é que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos estejam com sobrepeso; e mais de 700 milhões, obesos. O número de crianças com sobrepeso e obesidade no mundo poderia chegar a 75 milhões, caso nada seja feito.

No Brasil,assim como no resto do mundo,  a obesidade vem crescendo cada vez mais. Alguns levantamentos apontam que mais de 50% da população está acima do peso, ou seja, na faixa de sobrepeso e obesidade. Entre crianças, estaria em torno de 15%. No último levantamento oficial feito pelo IBGE entre 2008/2009, já pode-se observar este aumento.

Além de uma questão estética, é principalmente uma questão de saúde. A obesidade traz consigo um aumento do risco de diversas patologias, como doenças cardiovasculares ( sendo a hipertensão arterial, o acidente vasculo-cerebral e o infarto agudo do miocárdio os mais comuns), o diabetes mellitus, a dislipidemia ( aumento dos níveis de colesterol e triglicerídeos) e diversos tipos de câncer. Além dessas citadas previamente, observamos ainda doenças ortopédicas, como dores lombares, hernias de disco, artroses em articulações ( principalmente joelho e tornozelo), depressão, queda dos níveis de testosterona ( com consequente queda do desejo sexual e ereção), crises de gota ( devido à elevação do ácido úrico), esteatose hepática, entre outras.

Mas como saber se o nosso peso está adequado ou não para nossa altura? Existe um método um muito simples, chamado cálculo do IMC ( índice de massa corporal), que é a divisão do peso sobre a altura ao quadrado. Convenciona-se chamar de sobrepeso o IMC de 25 a 29,9 kg/m² e obesidade o IMC maior ou igual a 30 kg/m² e de excesso de peso o IMC maior ou igual a 25 kg/m² (incluindo a obesidade). Os pontos de corte de <16 kg/m2 (baixo peso grave), 16,0-16,9 (baixo peso moderado), 17,0-18,4 (baixo peso leve) também fazem parte da classificação internacional. Dentro dos IMC de obesidade, podemos ainda subdividir entre obesidade grau 1(IMC de 30 a 34,9 kg/m²), obesidade grau 2 ( IMC de 35 a 39,9 kg/m²) e obesidade grau 3 ou obesidade mórbida ( IMC acima de 40 kg/m²). Este método simples de cálculo entretanto, está sujeito a erros em caso de praticantes de atividade de força, como por exemplo a musculação, o cross fit ou o remo. Nesta população utilizamos métodos mais fidedignos que serão apresentados adiante.

A relação circunferência abdominal/quadril (RCQ) foi inicialmente, a medida mais comum para avaliação da obesidade central, mas há aproximadamente 20 anos reconheceu-se que pode ser menos válida como medida relativa. No entanto, na população brasileira, a RCQ também demonstrou associar-se a risco de comorbidades. A medida da circunferência abdominal reflete melhor o conteúdo de gordura visceral que a RCQ e também se associa muito à gordura corporal total. Outros métodos de análise são as medidas de dobras cutâneas, a bioimpedância, a densitometria de corpo inteiro (DEXA), a calorimetria indireta, tomografia e ressonância magnética abdominal. Em minha prática clínica, tenho utilizado muito o DEXA, visto ser um método bastante preciso, de baixo custo, com baixíssima irradiação e fácil realização. Além disso, esse método permite-nos calcular a Taxa de Metabolismo Basal ( TMB ).

Mas afinal de conta, por quê engordamos? Costumo dizer em meu consultório que o nosso corpo não aprendeu que temos geladeira em casa. Nossos ancestrais precisavam caçar seus alimentos e muitas vezes, passavam horas ou dias sem disposição do mesmo. Por isso, visando a sobrevivência, nosso organismo aprendeu a poupar energia, afim de preservar a vida, em momentos de privação dos alimentos. Sendo assim, uma vez que ingerimos alimentos em quantidades maiores do que as necessárias para as nossas atividades diárias, o organismo transforma esse excesso em depósito de gordura, ao invés de elimina-lo através das fezes e urina. Esse processo de armazenamento é bastante complexo, com alterações neuroendocrinologicas envolvidas. Da mesma forma, em períodos de privação prolongada de alimentos, o organismo pode por exemplo, reduzir o metabolismo basal, através de hormônios tireoideanos. Sabemos também que, além do desequilíbrio energético, existem patologias que podem causar o aumento de peso e devem ser pesquisadas pelo médico assistente, como é o caso do hipotireoidismo ou a síndrome de Cushing ( produção excessiva de corticoide pelo nosso organismo). Fatores genéticos também são relevantes nesse processo, sendo que a ciência já diagnosticou alguns genes ligados à obesidade.

Nas últimas décadas, a população está aumentando o consumo de alimentos com alta densidade calórica, alta palatabilidade, baixo poder sacietógeno e de fácil absorção e digestão. Estas características favorecem o aumento da ingestão alimentar e, portanto, contribuem para o desequilíbrio energético. Mudanças sócio-comportamentais da população também estão implicadas no aumento da ingestão alimentar e, portanto no aparecimento da obesidade. A diminuição do número de refeições realizadas em casa, o aumento compensatório da alimentação em redes de fast food e o aumento do tamanho das porções “normais” levam ao aumento do conteúdo calórico de cada refeição. O estilo de vida moderno também favorece o ganho de peso por diversos fatores: redução das horas de sono, redução das práticas de atividade física, redução do tempo para realizar as refeições de forma adequada. Cada vez mais estamos ligados às redes sociais, seja no computador ou nos smartphones e praticando menos esportes.

Desta forma, assim que você detectar que está em sobrepeso ou algum parente próximo, marque uma consulta com um endocrinologista. Este é o médico mais apropriado para pesquisar e tratar distúrbios do peso. Lembre-se: obesidade não é somente uma questão de estética e sim de saúde!

16 de novembro de 2017