Por uma nova política

Por Adelmir Santana

Essa não é a primeira crise política e moral que o Brasil enfrenta. Mas, de fato, é muito mais grave do que as outras. Ela nos incomoda pelo exagero, por atingir todos os Poderes em todos os níveis, pelo absurdo volume de dinheiro envolvido nos desvios, pela falta de limites e pelo total desprezo dos corruptos com a opinião pública. A impressão é de que a corrupção atingiu toda a classe política e as demais estruturas de governo. Essa é uma verdade quase absoluta. Quase porque, obviamente, sempre existem exceções. O problema dessa revolta generalizada é que apesar dela nos levar a uma crítica incondicional contra a corrupção, também faz com que grande parte da população acredite que não se pode fazer nada, que todos são corruptíveis, que no Brasil não se faz política sem conchavos e que os conchavos envolvem interesses financeiros. Essa é uma realidade que não podemos aceitar.

Alianças programáticas

Com um pensamento atrasado, os representantes da velha política nos fizeram imaginar que para se governar ou conseguir apoio era necessário lotear cargos, trocar favores, fazer caixa dois e desviar recursos. Consolidaram assim o fisiologismo e o clientelismo no País. A verdade é que alianças podem e devem ser construídas com base em boas ideias e em programas de governo. Pressupõe-se que para um partido se aliar a outro eles tenham, no mínimo, propostas em comum. Cargos podem ser ocupados levando-se em consideração a experiência de seus ocupantes. Leis têm que ser aprovadas em benefício da coletividade e as maiorias se constroem em defesa de uma nação.

Voto nulo não resolve

O principal protesto que um brasileiro pode fazer em uma eleição, nos dias de hoje, é ajudar a eleger um candidato honesto, competente e responsável. Se ainda assim, não existir ninguém com esse perfil, escolher entre o “menos pior” representa um gesto de indignação muito maior contra os políticos corruptos do que votar nulo ou em branco. A explicação é simples. Ao contrário do que muitos afirmam, essas opções de voto não são capazes de anular uma eleição. Referem-se exclusivamente a um direito do eleitor. Mesmo se mais de 50% dos eleitores votassem nulo, a eleição não seria cancelada. O artigo 224 do Código Eleitoral prevê novas eleições somente em casos nos quais é declarada a nulidade de mais da metade dos votos. Ocorre que essa nulidade está ligada diretamente a casos de fraude em um pleito.

Votar no melhor ainda é a alternativa

O voto nulo não serve nem para intimidar a classe política, tamanho é o desprezo de quem parece se importar cada dia menos com a opinião pública. O voto no Brasil, por mais contraditório que pareça, é considerado um ato de liberdade. O eleitor é livre para votar em quem ele quiser. É livre até para não votar em ninguém, anulando o seu voto ou votando em branco. Mas se assim o fizer é importante saber que não estará colaborando para a realização de um novo pleito. Se o objetivo é lutar contra a corrupção, votar no melhor candidato ainda é muito mais eficiente.

Chega de rouba, mas faz

O Brasil de hoje condena e não suporta mais a corrupção. Ainda assim, o País precisa agir diferente. Se por um lado, as pessoas ouvidas consideram a corrupção uma prática inaceitável em qualquer circunstância, por outro a cultura do “rouba, mas faz” ainda é uma forma de avaliação dos políticos bastante impregnada no pensamento coletivo. Mas a verdade é que a ética ou a honestidade não podem ser flexibilizadas, mesmo que o momento atual incomode pelo exagero, pelo desvio de recursos em todos os níveis e pelo descontrole dos nossos gestores. Quem aceita um produto fruto de um crime, aceita também a lógica criminosa. Compactuar com a corrupção é se tornar cúmplice do ladrão.

Quem rouba, rouba

Além disso, é importante ressaltar que uma ponte, uma estrada e um metrô superfaturados não significam benefícios para a sociedade. O preço pago pela corrupção extrapola esses parâmetros. Cada montante desviado – pode ser um centavo ou um milhão, corresponde a uma política pública, uma escola ou um hospital que não saiu do papel. Correspondem a crianças que não foram educadas, cidadãos que morreram na fila da UTI. No final das contas, só há espaço para uma lógica, a lógica da honestidade. Quem rouba, rouba.

1 de novembro de 2017