Recessão tira voos internacionais do JK, no prejuízo há três anos

Isabela de Oliveira – 

Cálculos certeiros sobre empuxo, arrasto, sustentação e gravidade não garantem o voo de um avião. Há, entre o céu e a terra, uma matemática tão ou mais importante do que física para fazer a aeronave sair do chão: a econômica. E desse tipo de conta o Aeroporto Internacional de Brasília Presidente Juscelino Kubitschek entende bem. Segundo a Inframérica — que administra o porto aéreo desde 2012 —, “juros elevados, perda do poder aquisitivo da população decorrente da inflação persistente e o aumento dos custos operacionais” resultaram na retração do setor pelo terceiro ano consecutivo. Apesar de ter certa previsibilidade em suas receitas, o JK lida com prejuízos recorrentes que consomem parte de seu capital social, contabilizado em R$ 945 milhões no ano passado. No mesmo ano, o prejuízo registrado foi de R$679.601. Em 2013, 2014 e 2015, o capital social acumulado foi de R$ 1,8 bilhão, enquanto a soma das perdas acumuladas nos três anos foi de quase R$ 565 milhões.

Ainda que a recessão tenha emitido os primeiros sinais no segundo trimestre de 2014, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) com a Inframérica, o impacto só chegou ao JK em 2016. O fato é que não foi um ano fácil para o turismo: 16 mil empresas do DF fecharam e 20,5% da população ficou desempregada.  Além disso, o dólar chegou à média de R$ 3,48 — alcançando R$4,16 em janeiro, o maior valor na história do real -, elevando o custo de itens essenciais para a aviação, como o querosene, que é cotado na moeda norte-americana. No Brasil, 40% do valor de cada passagem paga é usado para custear este combustível, enquanto no exterior a média é de 28%. Isso sem contar a retração de todos os setores da economia e queda de 3,6% no produto interno bruto (PIB), o que influencia diretamente a macroeconomia da qual o setor de turismo se alimenta.

Para se ter uma ideia do prejuízo, de 19,8 milhões em 2015, o fluxo de passageiros no aeroporto JK passou para 17,9 milhões em 2016. A baixa foi sentida principalmente nas viagens internacionais: em abril desse ano, a Inframérica registrou 30.689 passageiros, número muito abaixo dos 51.233 e 46.553 registrados no mesmo período de 2016 e 2015, respectivamente. “Viajar é o item número um na  pauta de lazer do trabalhador, mas também é o primeiro da lista a ser cortado”, diz Carlos Vieira, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens do Distrito Federal (Abav-DF). Ele estima que, em 2016,  o aeroporto perdeu 40% dos voos internacionais com as saídas estratégias de rotas da Delta Airlines, Aerolíneas Argentinas, e Air France. A Latam, que ainda opera no sítio aéreo, retirou dois destinos estrangeiros. A Inframérica não tabulou dados precisos sobre a frequência semanal de voos para o exterior em 2015, antes da debandada das empresas, mas informou que, atualmente, Latam, Tap, Copa Airlines, American Airlines, Azul e Gol operam, semanalmente, 26 viagens internacionais saindo de Brasília.  Segundo a concessionária, a Copa Airlines vai acrescentar, em breve, um voo diário para o Panamá.

Embora o cenário pareça desolador, Gabriela Berlin, diretora da Berlin Turismo, explica que menos passageiros não significa, necessariamente, menos renda. Pelo menos não para as agências de turismo. “Diminui a oferta de passagens, mas há aumento de preço em duas, três vezes mais. Uma passagem que custava R$800 agora fica entre R$ 1,7 mil e R$ 2,5 mil. Eu estou trabalhando menos, mas com o mesmo faturamento porque, agora, uma passagem custa o mesmo o que duas ou três custavam anos atrás” , analisa a empresária há 37 anos no mercado de turismo em Brasília. Na avaliação dela, mesmo com as dificuldades, o brasiliense de alto poder aquisitivo não dispensa as viagens para o exterior. E, segundo os números do Anuário Estatístico de Turismo 2017, do Ministério do Turismo, a percepção da empresária faz sentido: foram registrados 303.915 embarques regulares internacionais no aeroporto de Brasília em 2016, enquanto em 2015 o número ficou em 269.563. “Tem menos voos e pessoas viajando, sim. Mas quem compra é porque pode fazer esse investimento”, diz Berlin.
Carlos Vieira, da Abav-DF, percebe o mesmo efeito e acrescenta que, para não ficar no prejuízo, as empresas estão se adaptando às novas possibilidades dos clientes. Por exemplo: diminuem a duração das viagens, que de oito dias passam a ter cinco, ou cotam hotéis mais baratos. “Existe também a possibilidade de fazer conexões, mas nem sempre é vantajoso esperar em um aeroporto para economizar US$ 50 ou US$ 100, principalmente quando há crianças ou idosos viajando”, nota Vieira. Para ele, a expectativa é que o poder de compra dos consumidores aumente um pouco ainda nesse ano.
É também o que espera a Inframérica, que torce para que o PIB brasileiro cresça os tímidos 0,5% projetos para este ano pelo Banco Mundial.  A trégua da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2016, que ficou em 6,29% – menor índice desde 2013 – aponta para um futuro de preços mais estáveis e expectativas mais realistas dos agentes de mercado.
Mas se por enquanto falta dinheiro no bolso do brasiliense médio, não falta vontade de viajar, mostra a pesquisa Sondagem do Consumidor, realizada pelo Ministério do Turismo e Fundação Getúlio Vargas em capitais brasileiras, Brasília entre elas, durante abril de 2017.Segundo o levantamento, 27,9% dos brasilienses manifestaram interesse em viajar, enquanto em abril do ano passado, o percentual ficava em 22,2%. Porto Alegre (9,6%), Recife (8,9%) e Brasília (8%) são, respectivamente, as cidades com mais intenções de viajar para outros países.
A recessão, inclusive, não impediu que novas agências de turismo surgissem na Capital Federal. De acordo com o anuário, em 2013, havia 437 operadoras no DF. Em 2014 e 2015, passaram a ser 512 e 546, respectivamente. ” Quem trabalha com turismo não deve falar mal das condições, mas se adaptar para encontrar produtos adequados para o novo perfil da clientela. Com isso, ainda que timidamente, conseguiremos aquecer esse mercado”, aposta Carlos Vieira.
Com os pneus no chão 
Gabriela Berlin, da Berlin Turismo, prevê uma nova tendência para o turismo nos próximos meses, talvez anos: os ônibus. “É a vez deles entrarem em ação. Pessoas com menos recursos financeiros conseguiram andar de avião nos últimos anos, e eram excelentes pagadores, pois só tinham o nome, o crédito. Mas agora ficou difícil para eles, e muitos voltaram a ir de ônibus para continuar viajando”, explica.
A pesquisa Sondagem do Consumidor, do Ministério do Turismo, aponta para este caminho, sobretudo em Brasília, onde 15,3% dos viajantes preferem ir de ônibus.  Esse foi o maior percentual entre as outras cidades estudadas: Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. O movimento de passageiros saídos de Brasília nas rodovias brasileiras, em 2015, foi de 18.043.330 pessoas.
7 de junho de 2017


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