Ricardo Molina: o homem que escuta como poucos fala para o Extrapauta

Por Marcos Linhares – Como perito criminal e professor da Unicamp, Ricardo Molina já alcançou notoriedade e fama, numa sucessão de casos que ajudou a desvendar nas últimas décadas. Molina estreou no mundo das grandes polêmicas nas investigações da morte do ex-tesoureiro de campanha de Fernando Collor de Mello, o empresário alagoano PC Farias. Como perito criminal professor da Unicamp, Ricardo Molina já alcançou notoriedade e fama, numa sucessão de casos que ajudou a desvendar nas últimas décadas. Molina estreou no mundo das grandes polêmicas nas investigações da morte do ex-tesoureiro de campanha de Fernando Collor de Mello, o empresário alagoano PC Farias.

Recentemente, está às voltas com a polêmica das gravações do empresário Joesley Batista com Michel Temer, que colocaram o presidente no olho do furacão da lava-jato.

Em recente passagem por Brasília, Molina expôs o que considera um novo desafio em sua vida, que é o lançamento do livro “Brasil na Fita – De Collor a Dilma, tudo o que vi e ouvi em mais de duas décadas” , pela Editora Record  (veja matéria sobre o livro na coluna Quadra Literária).  Ao enveredar pela literatura, Molina diz que “é sempre bom contar história”. E até brinca sobre onde seu primeiro livro para o grande público foi colocado nas prateleiras das livrarias: a de história do Brasil.

No intervalo da tarde de autógrafos na Feira do Livro de Brasília, Molina conversou com o Extrapauta e falou de tudo um pouco, apesar de ressaltar que queria tratar mesmo só de literatura. Mas não deixou de responder sobre as gravações de Joesley Batista, da Caixa de Pandora e muito mais. Veja abaixo um pouco do que pensa  o homem com um dos ouvidos mais aguçados do Brasil.

Extrapauta – Gostaria de saber dessa tua experiência com os livros: Quanto tempo levou para reunir os casos e qual a linguagem que escolheu pra conduzir a narrativa?

Ricardo Molina – Esse livro levou quase quatro anos para ser tudo compilado, selecionar os casos que a gente achava pertinente e que, de uma certa forma, contavam um pouco da história política do país. A maioria dos casos estavam ligados à política. É até gozado que você vai até as livrarias e vai encontrar o livro na sessão de história do Brasil… (risos)

Extrapauta – Você nunca imaginou isso…

Ricardo Molina – Eu acho que devia estar em outro lugar. Como eles não encontraram outro lugar, colocaram em história do Brasil. Mas não deixa de ser , né, é um ponto de vista de alguém que viu a historia de outro ângulo, mas a linguagem eu tentei ser o mais jornalístico possível porque acho que tem de ser bom para ler.

Extrapauta – É o primeiro livro?

Ricardo Molina – É. Academicamente tenho outros trabalhos, mas como livro para grande público não especializado é sim, o primeiro.

Extrapauta – Gostou da experiência?

Ricardo Molina – É bom sempre contar historia. Daqui a pouco já tem mais história para fazer o segundo volume porque o Brasil é pródigo em casos verídicos.

Extrapauta – Como estava a fita do Joesley?

Ricardo Molina – Estava editada (risos)

Extrapauta – Cheia de cortes?

Ricardo Molina – Ela está cheia de defeitos, digamos assim. Alguns causados pelo gravador mesmo. O problema é que faltam 6 minutos e 21 segundos… A gente sabe disso por causa da programação da CBN, que corre junto.. Então, isso é inegável. Não tem como contestar. Para mim, uma gravação onde faltam 6 minutos e 21 segundos juridicamente não tem valor . Eu não discuto conteúdo. Ah, falou isso, falou aquilo. A análise é puramente técnica. Eu acho que a PF está com uma certa dificuldade de fazer este laudo porque eles não estão sabendo muito bem o que falar (risos)

Extrapauta – Posição difícil..

Ricardo Molina – É difícil. Como a situação é política e não jurídica , as vezes fica difícil estabelecer uma conclusão porque polêmica vai ter de qualquer maneira, não tenha dúvida.

Extrapauta – Um país como o Brasil – que está sempre as voltas com questões políticas muito delicadas-, deve ser um excelente lugar para um perito criminal trabalhar…

Ricardo Molina – E de uns anos para cá, com essa explosão de gravações aí, material e que não falta, né? Eu acho até que tá havendo um certo exagero, estão gravando mais do que o necessário…

Extrapauta – Está havendo uma certa banalização do uso disso?

Ricardo Molina – É uma banalização perigosa porque as gravações começam e a rede vai aumentando. Então, as pessoas que têm uma relação muito longínqua com aquele fato, às vezes, acabam sendo enredadas, e isso cria um gigantismo nas operações que pode prejudicar a própria operação. Por exemplo: o gigantismo às vezes provoca falhas processuais, quando você tem quarenta mil, cinquenta mil, oitenta mil, ou oitocentas mil gravações, como eu já vi em um caso, perder uma parte dessas gravações é muito fácil na tramitação delas… E como a lei é clara quanto a isso, que a defesa tem de receber todo o conteúdo, você pode criar uma nulidade pelo próprio gigantismo. É tanta coisa que você tropeça no próprio processo.. Essas coisas tramitam de um cartório para outro, vai do Ministério Público para outro lugar, vai para a justiça e aí devolve, aí não pega aquela prova lá, aí de repente alguém copia algum diretório a menos… Enfim, quando vai ver, acabou o processo, pede nulidade quando chegar no Supremo…

Extrapauta – Do ponto de vista jurídico, talvez fosse mais inteligente, como estratégia, focar mais?

Ricardo Molina – Focar mais, aliás, como a lei diz: Você só pode gravar quando tem indícios concretos. No Brasil, está se invertendo essa coisa, é na base do “vamos jogar a rede para ver se vem peixe”. (risos)

Extrapauta – Projetos para um próximo livro?

Ricardo Molina – Não, agora vou dar m tempo.

Extrapauta – É doloroso escrever um livro?

Ricardo Molina – É tanta revisão até chegar no tom que você quer… Espero que eu tenha chegado num tom agradável,né? O leitor não tem que sofrer. Ele tem que ser beneficiado e não pode sofrer com uma linguagem barroca. Às vezes, eu vejo isso em certos laudos e acho desnecessário o tal juridiquês… (risos).

Extrapauta – Do caso PC Farias até hoje, qual a perícia de áudio mais difícil que o senhor já pegou? Por que?

Ricardo Molina – Depois do caso PC FARIAS acho que houve um caso tecnicamente mais complicado que foi o do ACM, da quebra se sigilo do painel do Senado, porque a gravação era muito distante e foi feita em um gravador que ficou no outro cômodo e era muito difícil escutar a parte que realmente interessava. Então tecnicamente essa foi a mais complicada.

Extrapauta – Tivemos aqui em Brasília um caso que praticamente estreou a era das delações premiadas, que foi a Caixa de Pandora e que trouxe uma grande quantidade de áudios. O senhor chegou a analisar alguma coisa da Caixa de Pandora?

Ricardo Molina – Eu examinei diversas gravações, muitas mesmo, relacionadas com as delações do Durval Barbosa. Inclusive algumas envolvendo o próprio governador Arruda. É difícil sintetizar uma resposta só porque são muitas gravações, mas toda essa delação do Durval Barbosa é muito complicada,. Ele editou diversas gravações, cortou trechos muito longos das gravações.. No próprio caso de uma das gravações que envolve diretamente o governador Arruda há muitas interrupções na gravação . São gravações que para mim nem deveriam ter sido validadas. Lembra um pouco até agora o caso dessa do Joesley aí. Talvez até mais grave porque Durval usou equipamento próprio, coisas que não deveriam. Inclusive havia determinação ministerial para que ele não utilizasse equipamento dele, no entanto ele usou e essas gravações foram validadas. Há bastante irregularidade no caso, mas é difícil analisar assim de maneira tão breve.

Extrapauta – O Petrolão começou com delações que quase não envolviam áudios ou vídeos como base das denúncias, mas depois esse tipo de material começou a aparecer, principalmente a partir do caso do ex-senador Delcídio do Amaral. A Justiça entrou de vez na era do Big Brother?

Ricardo Molina – Não há dúvida de que nós estamos vivendo um momento Big Brother e eu cheguei a falar sobre isso que é a questão do gigantismo dessas operações quando tudo começa a depender de gravação. Fica um pouco perigoso porque às vezes a gravação não expressa diretamente aquilo que aconteceu. A gravação deve ser sempre considerada como um indício, mas é preciso procurar a prova. Eu acho que os procuradores e a justiça têm tentado encontrar essas provas, mas nem sempre encontram. Eu tenho visto muitos casos que o único vinculo, suporte até para a denúncia é uma mera gravação. Com isso eu não concordo, acho que a gravação é importante , mas ela tem que vir acompanhada de provas concretas.

Extrapauta – As pessoas hoje sentem-se inseguras de travar qualquer conversa menos convencional ou com alguém em quem não confiem bem. As formas de gravação, e de degravação, chegaram a um ponto que nada escapa das das garras da polícia e da Justiça?

Ricardo Molina – Há realmente hoje, com o avanço da tecnologia, formas de gravar com aparelhos muitos pequenos totalmente imperceptíveis para o interlocutor e de boa qualidade. É quase impossível saber se alguém está gravando ou se alguém está captando ou não . Então é preciso muito cuidado com isso também, para que não se torne a panaceia de todos os males, para que não se comece a usar gravação para tudo, que eu acho que é uma coisa que está acontecendo muito pouco. É preciso ter muito cuidado com a questão técnica também porque assim como avançam os aparelhos de gravação avançam muito mais rapidamente as técnicas e estratégias e ferramentas para poder editar a gravação . Então é assim que se deixa vestígio, o mundo digital é muito perigoso. Isso especialmente no áudio porque não é difícil de se manipular a gravação de forma a tirar trechos longos dela sem que isso seja percebido. Isso é muito fácil. As pessoas acham que isso é muito difícil mas não é .É muito fácil extrair trecho de gravação sem que isso seja perceptível para qualquer perito porque o mundo das gravações digitais é assim. Na época da fita cassete -nesse ponto embora fosse um recurso mais limitado -, havia muita segurança do ponto de vista técnico pericial. Hoje em dia é quase impossível dizer se a gravação foi editada ou não.

 

27 de junho de 2017