Salviano Guimarães: Espantos e lembranças de quem foi o primeiro presidente da  Câmara Legislativa

Salviano Guimarães

O primeiro distrital eleito para presidir a  Câmara Legislativa do DF, em 1991, vê com reservas o atual momento da Casa. “Infelizmente, nos últimos tempos, ela vem ladeira abaixo”, constata  o hoje professor aposentado da UnB Salviano Guimarães,  em entrevista ao Extrapauta. E, numa alusão ao apelido de Casa do Espanto, da Câmara Legislativa, ele diz que “realmente, ela tem espantado muita gente”.

Arquiteto formado na UnB em 1967, Salviano integrou a equipe de Oscar Niemeyer durante vários anos nas décadas de 60 e 70. Ele se lembra com orgulho dessa época e  mostra verdadeira devoção pelo trabalho de Niemeyer, que considera um mestre e amigo.

A formação profissional de Salviano Guimarães faz com que ele não poupe críticas à degradação urbana do DF e mire, além do  governo,  o Ministério Público, a quem atribui uma postura omissa.

Como político, Salviano testemunhou  as negociações em torno da sucessão de Roriz em 1994, quando, garante, até o dia da convenção do PSDB o acordo  era de que Roriz apoiasse o então ministro da Justiça de Itamar Franco e senador por Brasília Maurício Corrêa.

Numa narrativa que lembra a que a ex-governadora Maria de Lourdes Abadia  fez em junho  em entrevista exclusiva ao Extrapauta sobre a sucessão de 2006,  Salviano Guimarães conta que Roriz roeu a corda no último minuto da escolha do candidato em 1994, optando pelo apoio ao também então senador Valmir Campelo.

Filho de uma tradicional família de Planaltina, que chegou à região muito antes de aquela região ser transferida de Goiás para o DF, Salviano Guimarães nunca mais voltou a disputar uma eleição, mas nem por isso deixou de acompanhar o dia-a-dia político-administrativo da Capital Federal. E é um pouco dessa vivência que ele passa nesta entrevista exclusiva ao Extrapauta.

Extrapauta – Por que, tendo sido eleito para a primeira legislatura da Câmara Legislativa e também o primeiro presidente da Casa, o senhor desistiu de fazer campanha na eleição seguinte, em 1994?

Salviano Guimarães – O Roriz era o governador e eu como presidente da Câmara tinha minhas diferenças com o Roriz. Quando Collor foi deposto e Itamar Franco assumiu a Presidência, o senador  Maurício Corrêa foi nomeado ministro da Justiça. Oportunisticamente, e na política isso é um jogo válido, não é nenhum banditismo, o Roriz se aproximou mais do Maurício Corrêa.

Extrapauta – Com que objetivo, apoiá-lo na eleição para governador de 1994?

Salviano Guimarães – Mais ou menos.  O Maurício  foi ao Itamar e disse que queria ser governador de Brasília. O PSDB tinha indicado a Maria de Lourdes Abadia para candidata a governadora. O Maurício tinha saído  do PDT porque o PDT estava  o Collor. Ao ouvir o desejo de Maurício, o Itamar Franco  disse que ele tinha que se aproximar do Roriz, porque ele tinha muitos votos.

Extrapauta – E ele procurou essa aproximação?

Salviano Guimarães – Na verdade, o  Maurício já estava conversando com o Roriz. E o Roriz disse “se você for candidato, tem  meu apoio”. Um certo dia, o Itamar chama Maurício Corrêa, Fernando Henrique Cardoso , candidato a presidente da República e o Roriz. O Itamar coloca na mesa que seu candidato a governador por Brasília é o Maurício. O FHC disse que era candidato a presidente pelo PSDB e que apoiaria o Maurício, mas queria que ele fosse para o PSDB, porque ficaria mais fácil para ele fazer a composição.

Extrapauta – Mas e a candidatura da Maria de Lourdes Abadia pelo PSDB?

Salviano Guimarães – Então,  o  Maurício lembrou ao FHC que a Abadia era candidata. FHC disse que ela  não seria empecilho. Roriz disse que se Maurício era o candidato de FHC era dele também. Maurício, eu e outros amigos nos filiamos ao PSDB. O Sigmaringa era do PSDB e não concordou porque não queria aliança com Roriz. E disse que iria apoiar Lula e não FHC.

Extrapauta – Mas no final, essa aliança não prosperou, pois Maurício não saiu candidato. Por que?

Salviano Guimarães – Ficou tudo certo: Maurício candidato com apoio de Roriz e FHC. No dia da convenção do PSDB, ficamos na minha casa esperando o momento de irmos para a aclamação do Maurício. Mas aí um assessor do Maurício recebeu um telefonema, por volta das 17h30, e foi informado que Roriz deu uma entrevista dizendo que o candidato dele era o Valmir Campelo.  Na mesma hora o Maurício disse que não seria mais candidato.

Extrapauta – Por que essa mudança de planos de Roriz?

Salviano Guimarães – O Roriz , na minha análise, tomou essa decisão influenciado pelo seu grupo político. Porque eles sabiam que o Maurício era suficientemente forte para fazer um governo com a cara dele. Ia fazer a aliança com Roriz, mas quem ia mandar era o Maurício e o grupo dele. Me pediram de última hora para ser candidato e aí coloquei meu nome mas não fiz campanha. Não saí um dia para pedir voto.

Extrapauta – Acha que da primeira eleição para a Câmara Legislativa até hoje a população perdeu o encanto pelo papel da Casa?

Salviano Guimarães – A primeira legislativa foi de muita esperança para a população. O povo  de Brasília vinha no embalo da redemocratização do País e queria eleger o governador e os parlamentares distritais. A gente sentia nas ruas o entusiasmo da população em eleger pela primeira vez o governador da cidade.

Extrapauta – A Câmara Legislativa atendeu a esse anseio?

Salviano Guimarães – Na época, atendeu. E atendeu por vários motivos. Nós tínhamos uma Câmara com muito mais entusiasmo e compromisso público. Havia uma disputa ideológica, de ponto de vista, de visão, cada um com seu partido, com suas verdades, mas todos trabalhando por Brasília.

Extrapauta – E hoje, como você vê a imagem da Câmara Legislativa?

Salviano Guimarães – Infelizmente, eu tenho que enxergar a realidade. Ao longo desses anos, a Câmara foi caminhando ladeira abaixo.

Extrapauta – Você acha que ela merece o apelido de “Casa do Espanto”?

Salviano Guimarães – Acho que, relativamente, ela tem espantado a gente. Eu, como político, percebo uma desagregação interna muito grande. Nós não tínhamos essa desagregação. Tínhamos ideologias dentro da Câmara.

Extrapauta – E se  não  existe mais essa  ideolologia, o que move a  Câmara hoje, na sua opinião.

Salviano Guimarães – Não sei. Mas, de uma  certa maneira, o corporativismo foi tomando conta, não só da Câmara Legislativa, mas também da Câmara Federal. As forças corporativas buscaram se fortalecer dentro do legislativo para beneficiar suas corporações. São várias corporações, desde categorias profissionais, até religiosas.

Extrapauta – Com a experiência de quem trabalhou na equipe do Oscar Niemeyer aqui em Brasília, você acha que a cidade, o DF como um todo, sofreu muita agressão urbanística nos últimos anos?

Salviano Guimarães – Brasília sofreu. O DF sofreu muita agressão, por falta de governo, por falta de gestão pública. O governo foi permissivo com as ocupações irregulares.   E, lamentavelmente, continua. Até hoje você vê aí parcelamento de áreas arrendadas. Mas as pessoas culpam só o governo. Mas eu pergunto: onde está o Ministério  Público, que é, vamos dizer, o fiscal da Lei. O  Ministério Público só vem depois e faz algumas exigências talvez até por remorso. Porque foi omisso quando deveria agir.

Extrapauta – Por exemplo

Salviano Guimarães – Tem um exemplo que é claríssimo. Vicente Pires é terra pública, terra do Governo. Lá atrás, o governador José Aparecido fez ali um loteamento de chácaras, com finalidade  específica de produção agropecuária, tanto que chamava colônia agrícola. E hoje virou um grande loteamento.

Extrapauta – Faltou ação dos governos do DF e Federal?

Salviano Guimarães – Sim, mas por que é que o Ministério Público não agiu também? Por que é que o Ministério Público, quando verificou que estava havendo um loteamento, não foi lá e embargou, multou e exigiu que o Governo agisse e retirasse as pessoas de lá?

Extrapauta – E Vicente Pires continua crescendo até hoje, inclusive com prédios cada vez mais altos.

Salviano Guimarães – E isso é um absurdo. Isso é perigoso para a segurança dos próprios moradores.  Compromete o abastecimento de água, de energia elétrica, o transporte público. Enfim, compromete toda a estrutura governamental.

Extrapauta – Essa omissão que você cita de vários setores, compromete o futuro de Brasília?

Salviano Guimarães – Compromete, mas ainda tem salvação. Desde que haja uma ação conjunta de executivo, legislativo e judiciário.

11 de julho de 2017