Um relato de quem conhece a imprensa do DF por dentro

Ronaldo Martins Junqueira, o homem que de meados dos anos 1980 até pouco tempo atrás foi um dos mais poderosos da imprensa de Brasília diz que fez o curso de jornalismo em cinco minutos, numa visita desinteressada à sucursal brasiliense do extinto Jornal Última Hora, há exatos 41 anos. “Fui lá vender livros e acabaram me dando uma pauta sobre a visita do casal de príncipes japoneses a Brasília”.

Passou por redações de várias sucursais do DF, entre elas a do Jornal do Brasil, onde lembra que “trabalhava também um jovem, que depois viria a se tornar famoso, chamado Fernando Collor de Mello.”

Mas a história profissional de Ronaldo Martins Junqueira, prestes a completar 70 anos em julho, foi enriquecendo à medida em que ele galgava poder no cenário jornalístico e político local.

O auge profissional de Junqueira foi nos oito anos em que dirigiu a redação do Correio Braziliense, época também que o jornalismo impresso tinha mais influência, por não concorrer com a mídia eletrônica dos tempos atuais.
Junqueira comandou o jornalismo do maior e mais influente jornal da Capital Federal em momentos cruciais da vida política local e nacional, como a eleição da primeira bancada federal do DF, a derrota das Diretas Já no Congresso e, em seguida, a eleição indireta que marcou o fim da era dos presidentes militares com a eleição de Tancredo Neves num colégio eleitoral.

Nesses dois episódios, inclusive, Junqueira não atuou apenas como editor de jornal. À frente de uma empresa de consultoria política, prestou serviços ao candidato Paulo Maluf, por quem até hoje confessa ter grande admiração. “Até hoje acho o Maluf um político admirável”, ressalta, garantindo que essa admiração por Maluf não o impediu de tratar com isenção a disputa presidencial indireta de 1984.

Outro político por quem Junqueira diz ter admiração é Joaquim Roriz. No período em que Roriz exerceu o cargo de governador indicado, Junqueira ainda era diretor de Redação do Correio. Quando Roriz assumiu como eleito, em 1991, o jornalista já estava em voo empresarial solo, lançando seu próprio veículo, o Jornal da Comunidade, que fechou as portas no final do ano passado.

O filho popular do Comunidade, o Jornal Coletivo, também parou de circular e Junqueira hoje vive recluso, mas não menos polêmico ou disposto a novos desafios. “Estou pensando o que fazer. Um livro é certo. Mas outros projetos estão na minha cabeça, falta organizá-los”. Enquanto o livro não vem, Junqueira faz algumas revelações surpreendentes nesta entrevista exclusiva ao Portal Extrapauta. Como a de comandados do então chefe do SNI no governo Figueiredo, Newton Cruz, distribuíam malas de dinheiro entre jornalistas de redações do DF. Em alguns momentos, inclusive, Junqueira mostra que não perdeu o cacoete de repórter, e responde a perguntas com perguntas. Mas, em seguida não foge da raia e dá a respostas.

Extrapauta – Você acompanhou boa parte da vida política de Brasília, tanto na época que Brasília não tinha eleição, quanto depois. Foi bom pra Brasília passar a ter eleição?

Ronaldo Junqueira – Foi importante. O que aconteceu é que os homens que foram colocados com essas eleições é que foi uma coisa horrível.

Extrapauta – O que você viu nesses anos de Redação, principalmente quando foi chefe, e que não pôde falar?

Ronaldo Junqueira – Por exemplo, a distribuição de dinheiro ali na época da ditadura, do Newton Cruz, é um negócio que nunca foi comentado.

Extrapauta – Como era essa distribuição?

Ronaldo Junqueira – O Newton Cruz era o Chefe do SNI. E no fim do mês, pessoas ligadas a ele, passavam pelas redações distribuindo dinheiro para os jornalistas.

Extrapauta – E tinha um coordenador em cada Redação que recebia e distribuía?

Ronaldo Junqueira – Eu não sei, com certeza, mas acho que tinha.

Extrapauta – E você, como chefe, tinha conhecimento?

Ronaldo Junqueira – Tinha, eu sabia.

Extrapauta – E você recebia também?

Ronaldo Junqueira – Não. Eu ganhei dinheiro no comercial

Extrapauta – E isso parou com o fim do governo militar e o início do processo democrático?

Ronaldo Junqueira – Não. E muitas das pessoas que faziam isso estão aí até hoje. Mas eu não vou caguetar ninguém.

Extrapauta – E hoje, você acha que ainda existe?

Ronaldo Junqueira – Acho que não. A troca de interesses hoje se dá de outra forma. Se dá através de agência de publicidade, empregos, viagens. Já naquela época dava-se muita viagem. Eu mesmo viajei o mundo inteiro graças ao Paulo Maluf. Ele era governador de São Paulo e era o chefão do Correio e ele me chamava pra viajar.

Extrapauta – Você sempre teve uma boa relação com o Maluf. Chegou a prestar serviço pra ele?

Ronaldo Junqueira – Ótima relação. Ajudei ele na campanha presidencial (eleição indireta), de 1984.

Extrapauta – E isso não comprometia a isenção do Jornal?

Ronaldo Junqueira – Não. Porque o massacre contra ele, quando veio, foi tão grande, que esse negócio de isenção passou batido. Eu acho, até hoje, o Maluf um político admirável.

Extrapauta – Dentro dessa sua ótica, onde foi que o Maluf errou? Ou ele simplesmente foi pego para Cristo?

Ronaldo Junqueira – Agora, como naquela época, estão construindo outros diabos. Eu não defendo o Lula. Nunca gostei do Lula. Saí da Igreja Católica quando o PT entrou pra Igreja Católica. Quando entrou o PT com aquele negócio de Teologia da Libertação, aí eu saí fora. E eu acredito que o Maluf ainda vai merecer outro julgamento da história.

Extrapauta – Como assim?

Ronaldo Junqueira – A política brasileira anda tão ruim, tão podre, tão vagabunda, que o Maluf vai ser…

Extrapauta – Brasília tem algum Maluf, nessa sua ótica, que também pode vir a ser resgatado pela história?

Ronaldo Junqueira – Tem, o Roriz , por exemplo. Tentaram diversas vezes vestir uma roupa de Maluf nele. Mas não deu porque o Roriz conseguiu levar o encanto de político, de sertanejo, de peão, goianão, roceiro. Mas, evidentemente, uma pessoa que governou o tanto que ele governou, ia cometer alguma coisa, ou deixar acontecer alguma coisa no Governo dele. E até hoje ele é bem avaliado.

Extrapauta – Em quem você votaria hoje para ser governador de Brasília?

Ronaldo Junqueira – Em Joaquim Roriz. Foi a época mais feliz dessa cidade.

Extrapauta – Mas à falta de Roriz, que além de inelegível está doente, em quem você votaria?

Ronaldo Junqueira – Eu ainda não vislumbro esse nome.

Extrapauta – Onde Roriz errou que não conseguiu passar o bastão para algum parente, pois duas filhas dele até tentaram, mas não conseguiram ir muito longe?

Ronaldo Junqueira – Eu também não consegui isso. Tenho quatro filhos e não consegui fazer um jornalista.

Extrapauta – Se manteve sempre jornalista?

Ronaldo Junqueira – Não. Depois daqueles dois prêmios Esso (uma matéria sobre espionagem no Palácio do Planalto no Governo Figueiredo, e a cobertura sobre as investigações do assassinato do jornalista Mário Eugênio) eu fui saindo do jornalismo e entrando para o lado empresarial. Foi burrice minha.

Extrapauta – Esse foi o seu maior erro na profissão?

Ronaldo Junqueira – Sim. Só muito depois eu descobri que eu não pensava mais como jornalista. Só pensava como empresa.

Extrapauta – E isso de alguma forma prejudicou o lado jornalístico do seu negócio?

Ronaldo Junqueira – Claro, as dificuldades que eu passei a ter depois, não foram dificuldades do jornalista, foram dificuldades do empresário jornalista.

Extrapauta – Tem a ver com o mercado jornalístico, principalmente o convencional, o impresso?

Ronaldo Junqueira – Eu não evoluí a esse ponto. Eu não passei do papel impresso para internet. Eu olhava o site do jornal, que naquele momento era apenas uma obrigação de ter, eu olhava com um pouco de tédio. É uma discussão longa, mas até hoje eu continuo acreditando mais no jornal impresso. Se bem que eu tô vibrando com uma coisa que aconteceu há poucos dias, que foi o site do Globo botar fogo no País ao iniciar a divulgação das gravações contra Temer e Aécio.

Extrapauta – Como vê a relação dos jornalistas com órgãos de investigação, como Polícia Federal e Ministério Público?

Ronaldo Junqueira – Foi com a Constituição de 88 que esse negócio de Ministério Público começou a crescer, crescer. Ministério Público hoje aparta até briga de marido e mulher, de índio e não sei mais o que. Virou um megaórgão, uma megaestrutura que se move ao sabor da política.

Extrapauta – E a imprensa acabou ficando a reboque do Ministério Público?

Ronaldo Junqueira – Eu acho que sim. A imprensa está a reboque do Ministério Público.

Extrapauta – E isso é bom ou ruim para a sociedade?

Ronaldo Junqueira – Eu não sei. O Newton Cruz distribuir dinheiro nas redações, na época da ditatura, era uma promiscuidade. Isso era bom ou ruim?

Extrapauta– Como assim?

Ronaldo Junqueira – Agora, tudo o que o Ministério Público faz, é ético? Dias atrás mesmo eu ouvi o Janot falando que lamentava um procurador havia caído com a delação da JBS. Uma peça. Você acha que nessa estrutura toda não tem alguém ganhando dinheiro, passando informação de um lado para o outro? Aquilo ali, o MP, é feito por seres humanos.

Extrapauta – Essa história que você conta de o Newton Cruz distribuir malas de dinheiro nas redações de Brasília, você acha que se repetia por outras redações do País.

Ronaldo Junqueira – Todas.

Extrapauta – Então não era só o veículo que tinha comprometimento. Os próprios jornalistas também.

Ronaldo Junqueira –Exato. O Grupo Globo cresceu à sombra de que? Da ditadura. Mas os jornalistas também tinham suas benesses. Era um almoço, um jantar, uma viagem, contrato de assessoria. Essa questão de promiscuidade no jornalismo merece até um seminário.

Extrapauta– Isso está num passado distante, hoje os jornalistas estão mais independentes, menos promíscuos?

Ronaldo Junqueira – Eu acho que nem todos. Tem muito jornalista aí, que não sei não. Mas essa modernidade no jornalismo hoje, com tanta tecnologia, também dificultou um pouco essa corrupção, principalmente nas Redações. A vigilância da sociedade também contribuiu para diminuir isso.

Extrapauta – Ainda existe direcionamento da cobertura por interesses específicos?

Ronaldo Junqueira – Sim. Por exemplo, nas últimas semanas o Lula, o sítio, praticamente sumiram do noticiário. Tiraram o Lula e decretaram: agora é Temer.

Extrapauta – Mas isso é culpa da imprensa, um conchavo?

Ronaldo Junqueira – É um conchavo. Agora é o Temer e o Aécio. O Aécio entrou nessa história igual àquela história de contrapeso de açougue de interior. Quando você vai comprar carne e falta um pouco para completar o peso. Foi assim agora: então põe o Aécio aí também.

Extrapauta – Com esse argumento você não acha que está diminuindo demais a importância do senador Aécio no cenário político recente. Afinal, ele quase se elegeu presidente da República há dois anos?

Ronaldo Junqueira – E se ele tivesse sido eleito não estaria muito diferente.

Extrapauta – Essa grande quantidade de escândalos significa que os políticos hoje estão menos cuidadosos, ou a vigilância está maior?

Ronaldo Junqueira – Eu acho que os políticos pioraram muito de qualidade. Eu me lembro daquelas tardes que eu ia para o Senado acompanhar os debates do (Jarbas) Passarinho e do (Paulo) Brossard, Ulysses Guimarães, Tancredo. Era uma coisa de estadista. Eu sou daquele tempo. Hoje é um salve-se quem puder.

Extrapauta – Desde a redemocratização, teve algum presidente que deixou saudades?

Ronaldo Junqueira – Eu acho que o Brasil, a meu gosto, teve três presidentes: Getúlio Vargas, Geisel e Fernando Henrique Cardoso.

Extrapauta– Você citou o Geisel, do período da ditadura, e não citou JK. Por que?

Ronaldo Junqueira – Não é bem isso. O Geisel fazia. Quando dizia que ia acontecer uma coisa acontecia mesmo. Já o Juscelino era obreiro.

Extrapauta – E as denúncias de tortura da época do Geisel, ele não sabia?

Ronaldo Junqueira – Não. Tanto é que ele demitiu o general envolvido na denúncia igual a um cachorro. Eu tive a chance de conhecer o Geisel um pouco. Só os cuidados que ele tomava com a família dele, era uma coisa admirável. O Geisel era de uma escola, lá atrás, que não era uma escola só golpista. Era uma escola reformista. Era uma escola de progresso para o País e ele trabalhou muito nisso.

Extrapauta – Com o acirramento da crise, vez por outra se fala na volta dos militares. Acha isso possível?

Ronaldo Junqueira – Não. Não. Porque os militares, em si, perderam a qualidade fundamental que eles tinham, que é o patriotismo. Eles estão hoje com interesses.

Extrapauta – Que tipo de interesses?

Ronaldo Junqueira – Compra de armas. Compra de aviões, contratos de manutenção. Eles estão envolvidos em outros tipos de assuntos. Os militares de hoje são muito diferentes dos militares do passado. A única coisa que se assemelha é a farda.

Extrapauta – Qual sua percepção do Brasil de hoje?

Ronaldo Junqueira – O Brasil piorou muito. Não sei se é porque eu fiquei mais velho. As pessoas estão mais neuróticas. As cobranças estão mais veementes.

Extrapauta – Acha que há exagero nesses cobranças?

Ronaldo Junqueira – Acho. O politicamente correto passou de politicamente correto para patrulha.

Extrapauta – Exemplifique melhor essa sua descrença. Qual o caminho que seria a solução para o Brasil

Ronaldo Junqueira – Houve uma época que eu via a Marina Silva como uma esperança. Mas agora ali virou um clube de velhinhas. Então, não é mais minha esperança. Não é o Alckmin. E o Dória é um Collor que não foi descoberto ainda.

Extrapauta – Um Dória com mais qualidades ou mais defeitos que o Collor?

Ronaldo Junqueira – Eu não sei. Tem que avaliar. Ele é novo.

Extrapauta – Também dentro dessa perspectiva, e lembrando que você foi um contemporâneo do Collor numa redação de Jornal, ele foi totalmente negativo para o Brasil?

Ronaldo Junqueira – Não. E o grande mérito do Collor foi arrebentar com essas oligarquias todas. Arrebentar com essa indústria nacional vagabunda. Arrebentar com o atraso de muitas áreas. Mas isso não quer dizer que justifica a confusão que ele fez. O que o Collor não soube fazer foi distribuir a corrupção. Parece até que nós estamos repetindo agora o período do Collor. É uma briga por distribuição de dinheiro.

Extrapauta – Quem é o PC Farias de hoje?

Ronaldo Junqueira – Hoje tá cheio de PC Farias. Era mais fácil de administrar. Hoje tem um monte. O que é um Joesley? É um mega-Collor. Um cara que faz 60 empresas em três anos. Brincadeira.

Extrapauta – E as empreiteiras, naquela época já havia essa relação financeira entre empreiteiras e os políticos?

Ronaldo Junqueira – Já existia. Eu conheço desde que entrei em jornal, desde 1966. Já se ouvia isso. Só que na época eram três , quatro grandes empreiteiras: Odebrecht, Camargo Corrêa, Serveng. Parece que os empreiteiros eram de melhor qualidade. Hoje é batedor de carteira.

Extrapauta – Mas a Odebrecht hoje se mostrou que desde sempre participou do lado podre.

Ronaldo Junqueira –E qual empreiteira não participou do lado podre? Aqui, lá fora. Nas pequenas e nas grandes obras. Antes era coisa de criança. Hoje é muito mais profissional.

Extrapauta – E quando houve esse salto de coisa infantil para profissional?

Ronaldo Junqueira – Eu acho que no final do governo militar começou essa profissionalização da corrupção. Do Governo Sarney fala-se o diabo.

Extrapauta – E continuou no governo Fernando Henrique?

Ronaldo Junqueira– Sim, foi ainda mais profissionalizado. Mas o Fernando Henrique eu considero um gênio. Ele passou por tudo isso, saiu ralado, mas saiu. E hoje está aí com uma boa imagem. E até mulherengo ele é. Até essa idade.

Extrapauta – Você comandou mais de uma redação de jornal no DF por mais de duas décadas. Como é a relação dos políticos locais com os jornais?

Ronaldo Junqueira – Continuam sempre cobrando contrapartida. Quando está cheio de anúncios nos jornais e nas TVs, o nível de bondade nas matérias de interesse do Governo é diretamente proporcional.

Extrapauta – A mídia de Brasília sobreviveria sem as verbas oficiais locais?

Ronaldo Junqueira – Só sobreviveria se fossem jornais impressos de oito páginas, tipo jornais comunitários.

Extrapauta – Qual avaliação que faz da Câmara Legislativa?

Ronaldo Junqueira – É difícil. A Câmara é um festival de escândalos. Com sempre alguém querendo ocupar um espaço. Eu acho que a política deu um apagão geral.

Extrapauta – E você vê alguma luz no fim desse túnel?

Ronaldo Junqueira – Eu não localizei ainda.

12 de junho de 2017


4 Comentário

  1. Ronaldo Junqueira,um jornalista emérito,
    por quem eu tenho um grande carinho e respeito.De um grande caráter,conhece Brasília como ninguém.Essa entrevista feito enriquecer este site.

  2. Ronaldo Junqueira,um jornalista emérito por quem eu tenho um grande carinho e respeito.De um grande caráter,conhece Brasília como ninguém.Essa entrevista ,veio enriquecer este site.

  3. Nascimento , parabéns pela reportagem. Brilhante. Quem conheceu Ronaldo e desfrutou da amizade de Ronaldo sabe o quanto ele sempre foi querido. Ele faz falta ao jornalismo de Brasília.

  4. Ronaldo Junqueira marcou época no jornalismo de Brasília. É uma pena que ele fundou um jornal quando eles já estavam definhando por causa da Internet e TV.

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