Uma viagem pela história de altos e baixos do Conic

Por Eduardo Monteiro

Cine Venâncio Jr. Final da década de 1970. Foto: Adauto Cruz - DApress multimídia

No Conic a vida imita a arte, ou melhor, a vida é marcada pela resistência e vocação cultural. Podemos dizer que em suas veias corre a arte de resistir e de se reerguer, como  uma espécie de “fênix candanga”, que emerge das cinzas, se reinventa e segue seu caminho, indiferente aos desenganos dos novos tempos.

Considerado na década de 1970 um dos principais redutos da elite da capital, após a saída gradual das embaixadas em consequência da conclusão de suas respectivas sedes, o Setor de Diversões Sul, inicia um processo de mudança em sua rotina com o surgimento de clubes noturnos, bares pouco sofisticados dando início à degradação da área, que aumentou com a chegada de boates de “strip-tease”, casas de massagens e cinemas pornôs.

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A partir da década de 1980, o Conic passa a ser um centro comercial popular, o espaço ganha outras e mais variadas cores, sem perder a sua vocação de espaço multicultural e diverso. Surgem movimentos sociais e culturais ocupando o espaço de maneira ordeira e plural. Sem protagonismos desse ou daquele grupo sociocultural.

A Sétima Arte no Conic

 Em sua época de ouro, o Conic chegou a ter oito salas de cinema em plena atividade. O primeiro a ser construído foi o cine Atlântida, ainda na década de 1970, foi desativado e vendido a Igreja Universal em 1995. Foi o maior cinema de Brasília até hoje, com capacidade para 1200 lugares.

 

Cine Atlântida em construção, no início da década de 1970. Foto: DApress multimídia

 

Cine Atlântida, saída de uma sessão do filme E.T , 1982. Foto: F. Gualberto – DApress multimídia

A maioria das salas de projeção, no entanto, pertenciam ao grupo Karim, do lendário Abdala Carim Nabut. Dono de uma rede de cinemas na cidade, Carim mantinha um cinema com capacidade para mais de 50 lugares, em sua casa no Lago Sul, bem como, uma outra no 5º andar do edifício Miguel Badya, ambos para convidados assistirem aos filmes, antes que entrassem no circuito comercial.

 

Sala Miguel Nabut, década de 1980. Foto: Grupo Karim
Cine Ritz, década de 1980. Foto: Antônio Cunha – DApress multimídia
Entrada do Cine Venâncio Jr. década de 1980. Foto: DApress multimídia
Entrada do Cine Ritz, horário do almoço, década de 1980. Ao centro da foto uma das atrizes dos shows de streap-tease, deixa o local. Foto: Psola Antony – DApress multimídia
Técnico executa instalação do letreiro do cine Bristol, na fachada do edifício Boulevard Center. Repare que a segurança não era um fator muito observado. Foto: Simão – Da press multimíidia

 

Um palco para Dulcina de Morais

No ano de 1972, influenciada pelo presidente Juscelino Kubitscheck, Dulcina de Moraes, reconhecida por muitos como a maior expoente do teatro brasileiro, mudou-se do Rio de Janeiro para Brasília, transferindo a sede da Fundação Brasileira de Teatro – FBT para a cidade.  O Teatro Dulcina inaugurado em 21 de abril de 1980, e é um projeto de Oscar Niemeyer.

Dulcina morreu em 27 de agosto de 1996, aos 88 anos, aqui em Brasília, na cidade na qual abraçou. Deixou um acervo fabuloso de valor incalculável, que se encontra nas instalações da FBT. O Prédio da Fundação, é patrimônio histórico. O teatro, apesar de degradado é tido por especialistas como um dos melhores de Brasília. O plano de ressignificação do Centro de Brasília, de autoria da Prefeitura do Conic, em parceria com o Conseg – Brasília Centro contempla a revitalização da área.

 

Entrada da Fundação Brasileira de Teatro (Dulcina), anos 1980.

 

Entrada da Fundação Brasileira de Teatro, atualmente. Foto: Internet

 

Cafés e Livrarias

 No projeto original de Lúcio Costa, o Setor de Diversões Sul (Conic) e Norte (Conjunto Nacional), seriam os espaços para laser, diversão e cultural; deveriam ter além de cinemas e teatros, vielas e espaços aconchegantes que abrigariam cafés, livrarias e pequenas lojas. Hoje, quase nada desse sonho existe mais.

A Livraria Presença e, depois, o Café Belas Artes, de Ivan da Silva, o Ivan Presença, como tantos outros espaços tiveram seus dias de glória, mas hoje fazem parte do passado. Por mais 16 anos, Ivan, ainda se dedicou ao Quiosque Cultural (um pequeno sebo de livros que manteve na praça central do Conic).

O Café Eldorado, localizado no térreo do edifício de mesmo nome, funcionou de 1998 a 2015, e foi mais um espaço que não resistiu às mudanças trazidas pelos novos tempos.

 

Livraria Presença, década de 1980. Foto: Internet

 

Quiosque Cultural do Ivan da Presença, na praça central do conic. Foto: Internet

 

Show em frente ao Café Belas Artes, ao microfone o saudoso jornalista e radialista Julinho do Samba, e no canto direito, o lendário Manoel Brigadeiro, eterno embaixador do Samba de Brasília. Foto: Carlos Cruz – 1996

 

Café Eldorado, no térreo do edifício de mesmo nome. Foto: Grupo Eldorado

 

Fachado do edifício Eldorado, anos 1980. Foto: Grupo Eldorado

 

Eventos Culturais

Palco de eventos históricos e decisivos na vida política e cultural de Brasília, o Conic é, ainda hoje, um local emblemático de manifestações sociais e culturais.

No ponto central da Praça Zumbi dos Palmares, à frente do Conic, o então governador Cristóvam Buarque, inaugurou o busto de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro 1995, uma  homenagem  aos “300 anos de imortalidade” do líder do Quilombo dos Palmares.

Evento cultural no Conic, início dos anos 1990. Foto: Carlos Cruz

 

Roda de samba no Conic, início dos anos 1990. Foto: Carlos Cruz

 

Apresentação cultural no Conic, Banda Carlos Piauí. Foto: Carlos Cruz-1989

 

Apresentação cultural na Praça Zumbi dos Palmares, início da década de 1990. Foto: Carlos Cruz

 

“Disco Rígido”

 Com muita persistência, e ajudado pela volta dos discos de vinil ao mercado, Reinaldo Freitas, da  é um dos poucos remanescentes  a manter lojas do segmento tido como cultural.

 

Berlim Discos. Foto: Internet

 

Berlim Discos. Foto: Internet

 

A Esquina cultural de Brasília

Um lugar onde o sagrado e o profano convivem lado a lado; um ponto de encontro quase sem distinção social, cultural ou financeira.  Assim é o Conic, um espaço aberto à diversidade. O Conic, em toda sua história sempre foi palco de eventos culturais variado, que vão do Reage ao Rock, do Hip hop ao Gospel, da música folclórica à clássica, do Funk ao Samba. Cenário tradicional das escolhas das marchinhas do Pacotão, concursos pré-carnavalescos, rodas de samba e muito mais.

 

Em frente ao bar, a entrada da igreja. Convívio pacífico entre o sagrado e o profano. Foto: Internet

 

Apresentação do espetáculo Caliba no Conic.

 

Comissão julgadora de concurso pré-carnavalesco, em 1996. Ao centro o então secretário de Turismo, Rodrigo Rollemberg. Foto: Carlos Cruz

 

O secretário Rodrigo Rollembrg, prestigiando evento pré-carnavalesco no Conic. Ao fundo, o saudoso violonista Evandro Barcelos. Foto: Carlos Cruz

O sonho da volta ao passado

 Segundo a prefeita do Conic, Flávia Portela, é necessário interesse governamental para reformar o espaço. A Prefeitura, em parceria com o Conselho Comunitário de Segurança- Conseg, desenvolveu um projeto de Resignificação do Centro de Brasília, que tramita no GDF, com a proposta de se criar uma PPP para revitalizar a região. “Pela calçado do Conic passam em torno 500 mil pessoas por dia e circulam por aqui em torno de 15 mil. É a esquina cultural do DF. Brasília precisa retomar suas características originais. Não temos mais espaço para amadorismos. Toda a cidade ganhará com esse projeto, com o Dulcina de Moraes outra vez em pleno funcionamento, os cinemas, novos espaços e os quase 30 auditórios que se encontram no setor”, diz.

 

Evento carnavalesco no Conic. Bloco do Rabisco. Foto: Internet
17 de agosto de 2017


2 Comentário

    • Ellen, boa noite!Em nome da coluna Vitrine Brasília, agradeço pelo prestígio de sua leitura e pela sua informação sobre nosso erro. Esperamos continuar contando com sua valiosa participação. Muito obrigado.

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